Semana de moda: estética de skate é a mais influente da moda atual, segundo especialista

Segundo professor de moda, estilo atravessa décadas e se consolida como visual dominante no streetwear e no mercado de luxo

Skate vai além do esporte e também é presente na moda

Skate vai além do esporte e também é presente na moda | Pexels

A relação entre moda e skate já atravessou décadas e fronteiras, oscilou entre o underground e o mainstream, e hoje ocupa um lugar central na construção de tendências globais.

Para Márcio Banfi, professor de Moda da Faculdade Santa Marcelina que há anos observa os movimentos do street style e das subculturas urbanas, poucas estéticas se mantiveram tão coerentes, desejadas e culturalmente relevantes quanto a do skate.

“O skate nasce como algo totalmente alternativo. Ele aparece quando uma galera coloca rodas em um pedaço de madeira para continuar se divertindo quando não tinha onda. Era marginal, contracultura, transporte, autonomia“, afirma Banfi. Ao longo dos anos, aquilo que começou como improviso virou identidade estética e comportamento.

História da moda skate

Nos anos 1960 e 1970, as referências ainda eram herdadas do surf: calças mais amplas, Vans clássicos, camisetas justas e uma atitude despretensiosa que marcava a transição da infância para a adolescência. Mas, segundo o professor, a estética só se consolida de forma definitiva na virada dos anos 1980 para os 1990.

“Quando o grunge explode, o skate encontra um território visual sólido. As calças gigantes, as camisas xadrez, os camisetões, os gorros. Tudo isso surgiu ali e, na verdade, nunca mais foi embora”, afirma.

Banfi reforça que a constância é uma das características mais fascinantes dessa linguagem. “A moda dos skatistas muda muito pouco. Às vezes a calça fica um pouco maior, um pouco menor, a barra mais reta, o top mais curto, mas a estrutura é a mesma. Isso é raro”.

“As meninas também seguem o mesmo caminho: calças grandes, tops, tênis que aguentam impacto. É surpreendente como o estilo deles é sólido”, complementa.

Moda como ato político

O professor explica que a moda observa, absorve e devolve esses movimentos em ciclos contínuos. “Moda é política. Ela olha para o que está acontecendo no mundo e transforma isso em desejo. Depois a rua devolve, a moda responde, e isso vira um processo que eu chamo de tendenciologia. É assim com o hip-hop, o punk, os góticos e também com o skate.”

A influência aparece tanto em marcas independentes quanto nas grandes maisons. Desde a estética grunge elevada por Marc Jacobs nos anos 90 até o atual interesse de gigantes como Louis Vuitton e Gucci, o skate se tornou um laboratório de juventude e atitude para o mercado de luxo.

“A moda hoje é menos sobre roupa e mais sobre pessoas. Quando a Louis Vuitton escolhe a Rayssa Leal como embaixadora, não é só pelo estilo. É pela atitude, pela força, pela autenticidade. Ela é jovem, é esportista, é carismática. Isso interessa muito mais do que simplesmente vestir uma roupa”, explica o professor.

Streetwear

Banfi também aponta que esse movimento não se restringe ao alto luxo. No Brasil, o streetwear inspirado pelo skate é visível em qualquer fast fashion. “As calças barrel estão nas principais redes do país. As modelagens quadradas, as bermudonas, as camisetas amplas, é só olhar a vitrine, é puro skate.”

Para ele, parte do apelo está na sensação de liberdade e juventude transmitida por essa estética. “Quando uma mulher mais madura coloca uma bermuda larga e uma camisa quadrada, ela não está tentando parecer adolescente. Ela está buscando um visual mais leve, contemporâneo, descolado. O skate oferece exatamente isso: um estilo que não tem faixa etária.”

Segundo Banfi, o sucesso dessa linguagem também está no fato de que ela nunca se desconectou da rua. “O skate é jovem por natureza e democrático, e isso influencia demais a moda por gostar de lugares onde a vida está acontecendo.”

O ‘perigo’ do fast fashion

Mesmo com sua força dentro do mercado, Banfi não acredita que o skate perca seu sentido quando absorvido pelo sistema da moda.

“A moda sempre vai pegar coisas que estão pipocando no mundo e transformar em possibilidade estética. Ela não é fútil, amplia narrativas. É claro que tem um lado capitalista, mas, quando bem feita, também dá visibilidade e voz”.

O professor complementa que “o skate não tem uma ideologia rígida como o punk, então esse processo é menos problemático. Ele é mais sobre atitude e visual.”

Para o especialista, a estética do skate permanece justamente porque não tenta acompanhar tendências. “É um estilo sólido, coerente, universal. Ele não se pretende romântico, não se pretende perfeito. Ele é real. E é isso que a moda busca hoje.”

No fim, Banfi também reconhece que o próprio estilo pessoal foi moldado pelo skate. “A partir dos anos 1990, nunca mais usei calça pequena. O skate nos influencia de um jeito que nem percebemos.