Tarifa Zero vira motor econômico, mas impõe realismo fiscal às prefeituras

Com mais de 170 cidades adotando o passe livre, Brasil vê explosão no consumo local e no lazer, mas medida exige subsídio

Domingão Tarifa Zero, de São Paulo, registra mais de  310 milhões de viagens

Domingão Tarifa Zero, de São Paulo, registra mais de  310 milhões de viagens | Divulgação/PMSP

O transporte público brasileiro vive, em 2026, seu mais drástico ajuste de rota. O que começou como um experimento em cidades pequenas e médias agora é uma política de Estado que move milhões de brasileiros sem cobrar um centavo na catraca. 

O sucesso é visível nos números e no humor das ruas: o programa “Vai de Graça”, no Distrito Federal, rompeu a marca das 38,2 milhões de viagens em apenas um ano, em São Paulo os números são de 310 milhões, provando que o passageiro não abandonou o ônibus — ele apenas não conseguia pagar por ele.

O “salário extra” que circula no bairro 

O impacto vai muito além da mobilidade. Em Maricá (RJ), pioneira e vitrine do setor, os 115 mil embarques diários nos “Vermelhinhos” geram uma economia direta de R$ 16 milhões mensais para a população. É dinheiro que deixa de ir para a empresa de transporte e vai para o mercado, a farmácia e o comércio de bairro. 

Segundo a prefeitura da cidade fluminense, o sistema opera com 158 veículos e 49 linhas, tornando-se uma “referência nacional de dignidade”.

Já em São Paulo, o “Domingão Tarifa Zero” atingiu a marca histórica de 310 milhões de passageiros. O reflexo na economia é nítido: o faturamento do comércio em áreas com forte circulação de ônibus cresceu até 40%. 

Contudo, o custo da gratuidade exige fôlego. Para manter a tarifa atual em R$ 5,30 nos dias úteis, a capital paulista injeta R$ 7,2 bilhões em subsídios. 

Sem esse aporte, o paulistano teria que desembolsar R$ 13,49 por viagem, um valor que inviabilizaria o deslocamento de milhões de pessoas.

O desafio da superlotação e o “freio de arrumação” 

A forte adesão mostra o sucesso dos programas. Nove das 27 capitais já têm tarifa zero, mas o programa trouxe o desafio da escala. 

São Caetano do Sul (SP) , por exemplo, sentiu o peso da demanda ao ver o número de passageiros quadruplicar, transportando 27 milhões de pessoas desde 2023. 

O crescimento foi tão agressivo que a prefeitura precisou restringir o benefício apenas a moradores cadastrados em abril de 2026. Segundo a gestão municipal, a mudança foi necessária para garantir a qualidade, já que o sistema enfrenta “superlotação e reclamações de passageiros”.

O ano eleitoral como motor 

A proposta de nacionalizar e tornar lei a tarifa zero em solo brasileiro, deve receber uma atenção redobrada em ano de eleição. A pauta dita como popular, deve ganhar forte apelo em meio a corrida por votos. 

O presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB) é um dos personagens que já anunciou nos bastidores que vai articular a instalação de uma comissão especial para discutir a adoção de tarifa zero no transporte público.

Para os políticos, ela significa reeleição quase certa — a taxa de prefeitos que adotaram a tarifa zero no transporte e foram reeleitos foi de 89% em 2024, segundo estudo.