Racismo ambiental: nesta capital sombra é um privilégio de elite

Dados mostram que 84% das ruas são verdes, mas o frescor ignora a periferia; veja o abismo térmico no DF

Imagem aérea expõe a barreira entre áreas planejadas e a densidade das ocupações periféricas no DF.

Imagem aérea expõe a barreira entre áreas planejadas e a densidade das ocupações periféricas no DF. | Reprodução/ArchDaily Brasil

Brasília é mundialmente conhecida como a “cidade-parque” e figura entre as capitais mais arborizadas do País. No entanto, na prática, esse cinturão verde não se distribui de forma equilibrada.

É o que chamamos de racismo ambiental, enquanto áreas ricas são privilegiadas, as populações de baixa renda ficam expostas ao sol forte e recebem pouca infraestrutura urbana.

Embora os dados oficiais indiquem que 84,2% da população viva em ruas arborizadas, os estudos mostram que a vegetação se concentra onde a renda é maior.

Esse contraste é nítido quando saímos do Plano Piloto e entramos no Gama, na Ceilândia ou na Estrutural. Nessas regiões, a escassez de árvores atinge em cheio a saúde e o bem-estar de quem mora ali.

O verde que ficou só no papel

A raiz dessa disparidade está lá na formação da capital, marcada pela expulsão de trabalhadores para cidades-satélites que nasceram com quase nenhuma infraestrutura.

Enquanto o centro foi projetado para ter áreas verdes por todo lado, as periferias cresceram no improviso, muitas vezes perdendo a vegetação nativa para o avanço do concreto.

Essa lógica de planejamento acabou deixando as bordas do Distrito Federal fora do conforto térmico do Cerrado.

No coração da capital, é um privilégio caminhar por regiões que integram os principais monumentos e espaços culturais, com um paisagismo de primeira que contrasta drasticamente com a realidade seca e árida enfrentada por quem vive nas regiões administrativas mais afastadas.

Calorão nas satélites e saúde pública

A falta de árvores não é só uma questão de estética, ela castiga a saúde pública. Sem vegetação, surgem ilhas de calor severas que dificultam até as tarefas mais simples do dia a dia.

Para quem vive no “calorão” das satélites, faltam opções de lazer e aquela sombra necessária para um descanso digno.

Gente que mora no Gama e em Samambaia sente essa diferença de temperatura na pele durante todo o dia. A falta de sombra e o descaso com os espaços públicos dão uma sensação real de abandono.

É uma quebra clara do direito ao clima ameno que, teoricamente, Brasília deveria oferecer a todos os seus habitantes de forma justa.

Moradores tentam mudar a realidade na raça

Onde o Estado não chega, os moradores se organizam por conta própria. Surgiram movimentos comunitários que mobilizam vizinhos para recuperar áreas degradadas de forma voluntária, tentando transformar o território.

O problema é que esses projetos enfrentam barreiras pesadas, como a falta de apoio técnico para manter as mudas vivas e expandir o plantio.

A desigualdade cresce mais quando comparamos o investimento no centro, onde os brasilienses aproveitam um extenso complexo de lazer que é referência em toda a região.

Esse parque é incrível, mas está longe demais da rotina do trabalhador que vive em bairros onde não existe nem sequer uma praça arborizada para as crianças brincarem.

O que vem pela frente no PDOT

O Governo do Distrito Federal diz que o novo Plano Diretor de Ordenamento Territorial (PDOT) quer colocar a justiça ambiental no centro das decisões.

A ideia é priorizar as áreas que sofrem mais com o calor e usar até descontos em impostos, como o IPTU Sustentável, para estimular a recuperação do verde nessas regiões vulneráveis.

Para quem estuda o assunto, enfrentar o racismo ambiental exige investimento pesado e políticas que não parem no meio do caminho. Só com um olhar atento para as periferias é que Brasília será, de fato, uma cidade-parque por inteiro.