Sua mente não para durante o sexo? Entenda como isso pode interferir no prazer e no orgasmo

Pensar no trabalho, na aparência ou nas tarefas do dia durante a relação pode interferir na excitação; além disso, usar a imaginação para aumentar o prazer não significa, necessariamente, que exista algo errado

Pensamentos aleatórios podem surgir mesmo durante o sexo/ (Foto: Reprodução/Magnific)

Você está no meio de uma relação sexual e, de repente, pensa em uma coisa aleatória e se sente mal por isso. Você se força a focar no momento, mas, antes que perceba, viajou de novo. Isso é uma experiência feminina comum e não ter a ver necessariamente com baixa qualidade do sexo. 

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Pensar em uma conta que precisa pagar, se perguntar se sua barriga está dobrando demais naquela posição ou se o parceiro está gostando do que está acontecendo é quase inevitável.

A sensação de impotência diante desses pensamentos desconexos frequentemente traz sentimentos de culpa e frustração, acompanhados de uma dúvida recorrente sobre o motivo de não ser possível simplesmente desligar a cabeça e aproveitar o momento.

É díficil se desligar completamente, e nem deve ser esse o objetivo

Para muitas de nós, o sexo nem sempre é uma experiência imediata de relaxamento e entrega, mas, segundo especialistas, talvez a própria ideia de que é preciso “desligar a mente” para aproveitar o sexo esteja equivocada.

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O cérebro não possui um botão de emergência para alterar seu modo de funcionamento, já que tentar deixar a mente completamente vazia nem sequer é um objetivo fisiológico. “O sexo não é apenas uma resposta corporal; é também um processo atencional, cognitivo, emocional, relacional e contextual”, explica a psiquiatra Camila Espínola, do Hospital Quali Ipanema, no Rio de Janeiro.

Ou seja, estamos nos forçando errado. O cérebro não precisa ser desligado durante o sexo, ele é parte fundamental da experiência sexual. “Para a excitação sexual, o cérebro precisa estar envolvido. O problema é quando a atenção se desloca persistentemente dos estímulos eróticos e das sensações corporais para pensamentos que competem com eles”, afirma a médica.

Como entender essa diferença?

A ginecologista e terapeuta sexual Angélica Sales Barcelos, docente da Faculdade Santa Marcelina, explica que a sobrecarga mental é um dos fatores que mais podem dificultar a concentração no momento da relação. “É trabalho, é casa, são filhos, são os pais doentes, é um monte de coisa para resolver. A gente coloca foco em outras coisas e não se concentra nisso”, explica.

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A preocupação com o próprio corpo também aparece com frequência. Celulite, barriga, seios, posições e expressões faciais podem transformar a experiência sexual em uma espécie de avaliação constante de si mesma.

Um dos fenômenos mais mapeados pela literatura científica nessa dinâmica é o chamado spectatoring, ou monitoramento de si mesma. Camila Espínola esclarece que isso acontece quando a pessoa passa a observar o próprio corpo mentalmente de fora, em vez de vivenciar as sensações corporais por dentro. 

A atenção deixa de ser voltada para o que se está sentindo e passa a ser canalizada para como a pessoa está sendo percebida do outro lado. Para contornar esse hábito, é necessário exercitar o caminho reverso. Toda vez que pensar “Será que estou feia nessa posição?” Troque por tentar perceber como aquilo te faz sentir.

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“Há estudos com mulheres mostrando que maior distração cognitiva durante a atividade sexual está associada a menor autoestima sexual, menor satisfação e orgasmos menos consistentes”, reforça.

Por que os homens conseguem desligar a mente?

Existe também a ideia popular de que os homens teriam mais facilidade para desligar a mente durante a relação do que as mulheres, mas as especialistas apontam que essa percepção é baseada em estereótipos. 

Angélica Sales ressalta que, embora existam diferenças de gênero influenciadas por fatores sociais e biológicos, os homens também enfrentam distrações frequentes, geralmente voltadas para a ansiedade de desempenho, a manutenção da ereção e o tempo de duração da relação. 

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Na mesma linha, a Dra. Camila Espínola cita revisões científicas que mostram que, embora os homens relatem maior frequência de pensamentos e desejos espontâneos no cotidiano, a capacidade de concentração e a variação da atenção no momento exato do ato sexual são equivalentes entre homens e mulheres.

Mas, para as especialistas, transformar essas tendências em regras rígidas pode ser simplificador demais. Cada pessoa tem uma resposta sexual própria e pode ser mais estimulada por diferentes elementos: toque, cheiro, sons, ambiente, contexto emocional ou imaginação.

Um pensamento isolado não é o problema

Pensar em outra coisa durante o sexo não prejudica automaticamente a relação nem indica algum problema severo. Homens e mulheres são diferentes em muitos sentidos, e a dinâmica do desejo feminino também passa pelo conceito do desejo responsivo, formulado pela pesquisadora Rosemary Basson

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Cada pessoa tem seu jeito, e não podemos generalizar afirmando que todo homem e toda mulher são iguais, ou que isso é “coisa só de mulher” ou “coisa só de homem”. Mas, estatisticamente, nós mulheres não entramos no clima quase de imediato como muitos homens, que são mais visuais. Nosso desejo depende de contexto (como foi a semana, por exemplo), de estímulos (como preliminares bem feitas) e de mais paciência.

Quando a mulher começa a se preocupar constantemente com a própria aparência ou com a obrigação de chegar ao orgasmo, pode surgir um ciclo difícil de interromper: a preocupação diminui a atenção às sensações corporais, a excitação diminui, a pessoa percebe que está menos excitada e passa a se preocupar ainda mais.

Do ponto de vista neuropsicológico, Camila lembra do Modelo de Controle Dual, que demonstra que a excitação depende do equilíbrio entre aceleradores, que são os estímulos eróticos, e freios, que são os inibidores mentais como estresse e insegurança. Se o freio da preocupação for acionado com força, o corpo não consegue responder apenas aos estímulos físicos.

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Perguntas como “Será que estou fazendo direito?”, “Será que ele está gostando?” e “Por que ainda não cheguei ao orgasmo?” podem transformar o prazer em uma meta que precisa ser alcançada, e tentar desesperadamente atingir o orgasmo pode, na verdade, dificultá-lo.

E quando a mulher só consegue chegar ao orgasmo fantasiando?

Se pensar em trabalho e preocupações pode afastar a pessoa das sensações sexuais, existe um outro tipo de pensamento que pode fazer justamente o contrário: a fantasia.

Muitas mulheres relatam que conseguem aumentar a excitação ou chegar ao orgasmo quando imaginam cenários específicos durante a relação. Algumas criam histórias mentalmente; outras imaginam situações diferentes ou até outras pessoas.

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Isso significa que estão desconectadas do parceiro? Não necessariamente. “É perfeitamente possível que a fantasia funcione como estímulo cognitivo à excitação”, explica Camila.

Segundo ela, o cérebro participa ativamente da resposta sexual, e a imaginação pode funcionar como uma forma de ampliar o significado erótico das sensações físicas. “Uma mulher pode estar com o parceiro, sentir prazer físico, gostar dele, sentir-se segura, mas perceber que sua excitação aumenta muito quando acrescenta mentalmente uma fantasia”, afirma.

Nesse caso, a fantasia pode ser apenas mais uma ferramenta de excitação, assim como determinadas palavras, músicas, ambientes ou contextos. Angélica também destaca que fantasiar durante o sexo é algo comum.

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“Fantasiar é normal e saudável, desde que você se sinta bem com isso e a parceria também”, diz. Do ponto de vista médico, imaginar outra pessoa ou outro cenário não significa automaticamente falta de amor, de atração ou insatisfação com o parceiro. “Fantasia não é intenção”, destaca Camila.

Uma pessoa pode imaginar algo que jamais desejaria realizar na vida real. O conteúdo da fantasia não precisa representar literalmente uma vontade ou preferência comportamental.

Pensar em fantasias durante o ato não é errado

A fantasia, nesse sentido, também não precisa representar uma fuga. Para algumas pessoas, ela pode funcionar justamente como uma ponte entre a estimulação física e a excitação mental, ajudando a ampliar o significado erótico do momento e a afastar pensamentos concorrentes.

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As especialistas reforçam que fantasiar durante a relação sexual é algo normal, saudável e bastante comum. Angélica Sales aponta que a fantasia é um recurso interno natural para aumentar a disponibilidade erótica e a excitação, funcionando como uma ferramenta de prazer que não gera nenhum tipo de prejuízo quando vivida de forma leve.

Quando a fantasia deixa de ser apenas uma preferência?

A questão, segundo as especialistas, não é simplesmente se a pessoa fantasia ou não. A pergunta mais importante pode ser: o que acontece quando ela não fantasia?

Existe uma diferença entre usar a imaginação, porque isso aumenta o prazer, e sentir que não é possível experimentar praticamente nenhuma excitação sem reproduzir mentalmente uma situação extremamente específica.

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Se a necessidade de fantasia não gera sofrimento, não prejudica a relação e a pessoa continua tendo flexibilidade na vida sexual, não há motivo automático para considerá-la um problema.

“Se não gera sofrimento nem para a pessoa, nem para o relacionamento, está tudo bem”, afirma Angélica. Mas pode valer investigar quando existe rigidez ou sofrimento.

Por exemplo, se a pessoa sente que só consegue ter prazer com uma fantasia específica, se não consegue aproveitar o contato físico sem se desligar completamente da situação real ou se essa necessidade causa angústia, culpa ou prejuízo no relacionamento.

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Nesse caso, podem existir diferentes fatores envolvidos, como ansiedade, estresse, dificuldades relacionais, trauma sexual, baixa autoestima corporal, alterações hormonais, efeitos de medicamentos ou simplesmente uma preferência sexual que precisa ser compreendida.

A avaliação das dificuldades sexuais, segundo Camila, deve ser biopsicossocial, considerando fatores físicos, psicológicos, relacionais e contextuais.

Fantasia e pornografia são a mesma coisa?

A fantasia sexual é uma experiência mental e interna, a própria pessoa cria um cenário, uma história, uma situação ou uma dinâmica na imaginação.

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A pornografia, por outro lado, é um estímulo externo, geralmente audiovisual. Uma pessoa pode fantasiar sem consumir pornografia, consumir pornografia sem necessariamente fantasiar, usar os dois recursos ou não precisar de nenhum deles.

“Uma coisa não necessariamente leva à outra”, afirma Camila. Angélica explica que a imaginação pode ser usada como uma ferramenta para aumentar a excitação e o autoconhecimento, enquanto a dependência de estímulos externos envolve uma necessidade maior de materiais específicos para conseguir se excitar.

A preocupação surge, principalmente, quando a pessoa passa a sentir que só consegue ter prazer ou atingir o orgasmo com determinado estímulo externo.

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Pornografia pode “viciar” o cérebro sexual?

O assunto exige cuidado, porque há muitas afirmações categóricas circulando na internet que não são sustentadas de forma tão simples pela ciência. Segundo Camila, não é possível afirmar simplesmente que pornografia causa disfunção sexual.

Os estudos disponíveis apresentam resultados variados: alguns encontraram associações entre consumo e problemas sexuais, outros não observaram essa relação e alguns identificaram possíveis efeitos positivos.

Um ponto considerado mais relevante do que simplesmente a frequência de consumo é se o uso se tornou problemático. Assistir a pornografia várias vezes por semana, por si só, não caracteriza dependência.

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A situação merece mais atenção quando há perda de controle, tentativas frustradas de reduzir o consumo, prejuízos no trabalho ou nos relacionamentos, sofrimento significativo ou necessidade cada vez mais específica de determinados estímulos. “Um sinal mais informativo do que perguntar quantas vezes por semana é perguntar: o que acontece sem ela?”, afirma Camila.

A pessoa consegue se excitar com um parceiro? Consegue se masturbar sem pornografia? O estímulo necessário está ficando cada vez mais específico? A pornografia está substituindo sistematicamente a intimidade?

Quando procurar ajuda?

Pode ser interessante conversar com um ginecologista, profissional especializado em medicina sexual, psicólogo ou terapeuta sexual quando houver sofrimento significativo, perda persistente de desejo, dificuldade de excitação ou orgasmo que incomode a pessoa, dor durante o sexo, pensamentos intrusivos intensos, sensação de desconexão com o próprio corpo ou necessidade cada vez mais rígida de uma fantasia ou estímulo específico.

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E há outro ponto importante: não atingir orgasmo durante a penetração, isoladamente, não significa que exista uma disfunção sexual.

A resposta sexual feminina é variável, e o objetivo não deve ser enquadrar todas as pessoas em um único modelo de “sexo normal”, mas compreender se existe bem-estar, prazer, consentimento e satisfação na experiência sexual.