Em Fortaleza, um bode chegou a ser eleito vereador sem fazer campanha, sem discursar, e sem tomar posse. O episódio aconteceu em 1922, quando Ioiô já era conhecida nas ruas da capital cearense e acabou escolhida em um protesto político que a transformou em personagem da história da cidade.
Um bode pelas ruas
Ioiô chegou a Fortaleza em 1915, durante um período de seca severa no Ceará. Depois de ser vendido pelos primeiros donos, passou para as mãos de José de Magalhães Porto, representante da Rossbach Brazil Company, empresa britânica ligada à exportação de couros e peles.
Na Praia de Iracema, o animal virou mascote da empresa. Com o tempo, passou a acompanhar Magalhães em seus deslocamentos até o Centro e ganhou liberdade para circular pela cidade. O percurso entre a Praia de Iracema e a Praça do Ferreira ajudou a explicar o nome Ioiô, numa referência ao movimento de ida e volta do brinquedo.

A presença do bode chamou a atenção de quem frequentava bares, cafés e outros estabelecimentos do Centro. Segundo relatos, boêmios e escritores costumavam recebê-lo e até lhe ofereciam cachaça. Também ficou conhecida a história de que Ioiô batia os chifres nos balcões de padarias para tentar conseguir comida.
O voto de protesto
A fama do animal encontrou um momento político peculiar em 1922. Naquele período, os eleitores escreviam o nome dos candidatos em cédulas de papel. Um grupo de frequentadores da Praça do Ferreira, liderado pelo advogado e poeta Quintino Cunha, promoveu uma campanha para colocar Ioiô no Legislativo municipal.
O protesto funcionou. O nome do bode apareceu nas cédulas e ele foi eleito vereador de Fortaleza. Ioiô, evidentemente, nunca tomou posse. Ainda assim, a votação transformou o animal em um símbolo de contestação e ajudou a consolidar o apelido de Bode Celebridade.
A história também se relaciona ao ambiente de insatisfação política existente na cidade.

Do centro ao museu
Ioiô viveu até 1931 e foi encontrado morto nas proximidades da Praça do Ferreira. Depois da morte, seu dono custeou o empalhamento e doou o animal ao Museu Histórico do Ceará, hoje Museu do Ceará, em 1935.
A peça enfrentou resistência de parte da elite intelectual, que considerava o bode inadequado para um acervo histórico. Com o passar dos anos, porém, a percepção mudou. Ioiô se transformou em uma das figuras mais conhecidas ligadas à memória de Fortaleza e passou a representar a irreverência atribuída à cultura do Ceará.
Até a peça de museu ganhou uma história própria. Em 1996, o rabo do bode foi roubado. Anos depois, Ioiô passou por restauração. Em 2024, voltou a ser exposto após um novo trabalho de conservação, que incluiu limpeza, retoques e a recuperação de partes como chifres, orelhas e rabo.
Uma memória que continua
A história de Ioiô não ficou restrita ao museu. O bode já apareceu em documentários, cordéis e livros infantis. Em 2019, também virou tema do enredo da escola de samba Paraíso do Tuiuti no Carnaval do Rio de Janeiro.
Fortaleza ainda mantém espaços dedicados à memória do personagem. O Museu do Bode Ioiô, instalado no Mercado Central, reúne fotografias, artesanatos, literatura popular, cordéis e outras publicações relacionadas à história do animal.
Ioiô não ocupou uma cadeira no Legislativo, mas acabou conquistando um lugar permanente na memória de Fortaleza.







