Estados brasileiros investem 5 mil vezes mais na polícia que na saída da prisão

Levantamento mostra desequilíbrio nos gastos públicos e falta de políticas para reinserção social de egressos do sistema prisional

Sistema penitenciário recebeu, em média, R$ 1.221 para cada R$ 4.877 investidos nas polícias

Sistema penitenciário recebeu, em média, R$ 1.221 para cada R$ 4.877 investidos nas polícias | Divulgação/Governo de SP

Os estados brasileiros destinam quase 5 mil vezes mais recursos às forças policiais do que a programas voltados à reinserção social de ex-presidiários.

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O dado faz parte de uma pesquisa nacional divulgada nesta semana pelo centro de estudos Justa, que analisou os orçamentos de 24 unidades da federação e concluiu que, para cada R$ 4.877 aplicados em polícias em 2024, apenas R$ 1 foi destinado a políticas exclusivas para pessoas egressas do sistema prisional.

Segundo o levantamento, o sistema penitenciário recebeu, em média, R$ 1.221 para cada R$ 4.877 investidos nas polícias.

Ao todo, os estados destinaram R$ 109 bilhões à segurança pública e ao sistema prisional no ano passado, sendo R$ 87,5 bilhões (79,9%) às forças policiais, R$ 21,9 bilhões (20%) às prisões e apenas R$ 18 milhões (0,001%) para egressos.

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“Os números revelam o desequilíbrio estrutural da política de segurança no país: investe-se na prisão, mas não na porta de saída. As políticas de reabilitação e reintegração social seguem relegadas ao abandono”, afirma Luciana Zaffalon, diretora-executiva do Justa.

De acordo com ela, a falta de investimento em egressos perpetua o ciclo de encarceramento e dificulta qualquer tentativa de ressocialização.

Pouco investimento

O levantamento mostra ainda que apenas seis estados, Bahia, Ceará, Mato Grosso, São Paulo, Sergipe e Tocantins, destinaram recursos específicos para programas voltados a ex-presidiários.

Outros 21 estados e o Distrito Federal não registraram nenhum investimento nessa área, mesmo diante de exigências de transparência previstas em lei.

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Para Zaffalon, os gestores públicos dispõem de instrumentos legais capazes de alterar esse quadro, como o Plano Pena Justa, elaborado pelo Conselho Nacional de Justiça (CNJ) em parceria com o governo federal e a sociedade civil.

O plano propõe ações de combate à superlotação carcerária, melhorias de infraestrutura e políticas de reintegração pós-pena.

Concentraçaõ de recursos

Dentro da própria estrutura policial, a distribuição dos gastos também é desigual. As Polícias Militares, responsáveis pelo patrulhamento ostensivo, concentraram 59,7% dos recursos, o equivalente a R$ 52,2 bilhões em 2024.

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As Polícias Civis ficaram com 23% (R$ 20,2 bilhões), enquanto as polícias técnico-científicas, fundamentais para a produção de provas, receberam apenas 3% (R$ 2,5 bilhões).

“O desinvestimento na investigação e na prova técnica compromete a legitimidade do encarceramento em massa”, avalia Zaffalon. “Temos uma porta de entrada superfinanciada, com prisões em flagrante e operações ostensivas, mas uma estrutura de investigação enfraquecida.”

Rio e São Paulo lideram gastos

O Rio de Janeiro aparece entre os estados que mais destinam recursos à segurança pública em proporção ao orçamento total.

Em 2024, o governo fluminense aplicou cerca de 10,3% do orçamento, aproximadamente R$ 10,3 bilhões, em policiamento, valor equivalente à soma dos investimentos em educação, saneamento, energia e trabalho.

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Mesmo com essa fatia expressiva, não houve investimento específico na polícia técnico-científica. Quase 80% dos recursos foram direcionados à Polícia Militar.

Já o estado de São Paulo lidera em números absolutos, com R$ 16,9 bilhões gastos com polícias, o equivalente a 4,9% de todo o orçamento estadual.

O montante supera, segundo o estudo, a soma dos investimentos paulistas em 13 outras áreas, incluindo habitação, cultura, ciência e tecnologia e assistência social.

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Violência policial e pressão internacional

A escalada de gastos policiais ocorre em meio a denúncias de violência e abusos cometidos em operações.

No fim de 2024, mais de 80 organizações e movimentos sociais encaminharam um documento à Organização dos Estados Americanos (OEA) denunciando o governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) e o secretário de Segurança Pública, Guilherme Derrite, pelo aumento da letalidade policial em São Paulo.

Entre os casos citados estão as operações Escudo e Verão, que deixaram dezenas de mortos, e o episódio em que um jovem foi jogado de uma ponte por um policial.

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O grupo pede que a Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) monitore a situação e recomende medidas ao governo brasileiro.

No Rio, a Operação Contenção, realizada em outubro nos complexos da Penha e do Alemão, terminou com 119 mortos, segundo dados oficiais, a ação mais letal já registrada na cidade.

Para o presidente da ONG Rio de Paz, Antônio Carlos Costa, o quadro reflete uma política que privilegia o confronto e negligencia a prevenção.

“As causas desse problema já são conhecidas, mas falta vontade política para mudar. Quem morre são os moradores das comunidades, e quem governa ainda se elege com o discurso do ‘bandido bom é bandido morto’”, afirmou.