Outubro Rosa: diagnóstico não é sentença; veja relatos da jornada de recuperação de pacientes de câncer de mama 

Relatos de pacientes mostram diferentes caminhos do tratamento; especialistas explicam a importância da investigação precoce, os fatores de risco e os avanços que permitem personalizar o cuidado

"Diagnóstico não é sentença", concordam pacientes/ Foto: Arquivo Pessoal

Quando Iraci percebeu um pequeno caroço na mama, no fim de dezembro de 2015, estava perto do Natal. A vida seguia em seu ritmo habitual, com compromissos familiares e planos para o futuro. Entre eles, a festa de 15 anos da filha mais nova, que tinha 14. O que parecia uma alteração discreta no corpo logo se transformaria em uma experiência capaz de mudar a maneira como ela enxergava a própria vida.

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Iraci, hoje com 59 anos, procurou atendimento pelo Sistema Único de Saúde (SUS), onde costumava realizar seus exames. Conseguiu uma consulta ginecológica para março do ano seguinte. Vieram a mamografia, a ultrassonografia, a repetição dos exames e, por fim, a biópsia. Enquanto o caroço aumentava, ela ainda não sabia o que estava acontecendo.

A confirmação chegou durante uma consulta. O médico disse que as suspeitas haviam se confirmado. A partir daquele momento, Iraci deixou de ouvir o que ele falava, igual aquelas cenas de filme quando o protagonista recebe um baque. Em sua cabeça, a notícia já tinha se transformado em uma sentença: ela não estaria viva para acompanhar a festa da filha.

“Eu não vou conseguir ver a festa dela, eu não vou conseguir ver mais nada”, recorda sobre o pensamento que teve naquele instante. A mão do marido em seu ombro era uma das poucas coisas que conseguia perceber enquanto tentava assimilar o diagnóstico. Depois, veio o choro. O medo não estava apenas na possibilidade de morrer, mas também naquilo que poderia perder: os filhos crescendo, os encontros em família e os acontecimentos que, até então, pareciam garantidos.

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Ela é uma das cerca de 78.610 mulheres registradas com casos de câncer de mama por ano (considerando o triênio 2026–2028), segundo dados do Instituto Nacional de Câncer (INCA). A doença exige investigação, decisões médicas e, em muitos casos, meses ou anos de tratamento.

Mas também atravessa relações, planos, trabalho, identidade e a maneira como cada mulher passa a olhar para o próprio corpo. Iremos conhecer mais outras quatro pacientes nessa reportagem.

O tratamento é exaustivo, para o corpo e a mente

Taís Milani, de 45 anos, trabalha em um banco de grande porte, é mãe de Henrique de 17 anos, mantém uma rotina ativa, com treinos seis vezes por semana, ama suas cachorras e viajar. O câncer surgiu no meio disso tudo.

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Em 2023 descobriu o primeiro câncer, na tireoide, durante exames de rotina. Após uma cirurgia no início de 2024, seguiu em acompanhamento até receber alta em abril de 2025. Meses depois, em setembro do mesmo ano, um novo exame identificou um carcinoma de mama HER2 positivo, que exigiu seis sessões de quimioterapia, 16 de imunoterapia e a retirada total das duas mamas, em março de 2026.

Durante o tratamento, Taís enfrentou dores intensas, cansaço e queda de cabelo, mas buscou manter-se ativa, continuou trabalhando e contou com o apoio da família e dos amigos. Em fevereiro de 2026, decidiu raspar a cabeça em um gesto que descreveu como libertador e simbólico de seu renascimento.

Apesar de considerar sua recuperação boa, Thaís não se considera curada. Ela voltou a sua rotina pré câncer mas segue se medicando e em imunoterapia, com previsão de término em 22 de outubro de 2026, e aguarda a investigação de uma nova massa no útero, que poderá exigir cirurgia. Ela reforça para outras mulheres na mesma situação que é essencial se permitir ser vulnerável e se respeitar.

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Não existe uma única maneira de receber a notícia, tampouco um caminho igual para todas as pacientes. Há mulheres que encontram forças na fé, outras que precisam de tempo para lidar com o medo e aquelas que descobrem, durante a jornada, a importância de receber acolhimento.

Todo caso de câncer de mama se manifesta igualmente?

A trajetória até a confirmação da doença pode envolver diferentes etapas. O aparecimento de um nódulo não significa necessariamente câncer, já que alterações benignas também podem provocar caroços e mudanças nas mamas. Ainda assim, qualquer alteração nova ou persistente precisa ser investigada, independentemente da idade.

A ginecologista e obstetra Larissa Pires explica que o câncer de mama é uma doença multifatorial. Entre os fatores associados ao risco estão o envelhecimento, o histórico familiar, determinadas alterações genéticas, características da vida reprodutiva e hormonal e a presença de mamas densas. Sedentarismo, excesso de peso, especialmente após a menopausa, e consumo de bebidas alcoólicas também podem contribuir para o aumento do risco.

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Ter um ou mais desses fatores não significa que a mulher necessariamente desenvolverá a doença. Da mesma forma, não ter casos conhecidos na família não elimina a possibilidade de receber o diagnóstico.

Por isso, o acompanhamento deve considerar a história pessoal e familiar, a idade e as necessidades de cada paciente. Segundo Larissa, o ginecologista pode identificar fatores de risco, orientar os exames adequados e encaminhar a mulher para investigação complementar quando houver suspeita.

Entre os sinais que merecem atenção estão nódulos nas mamas ou nas axilas, alterações no tamanho ou no formato de uma das mamas, retração do mamilo, mudanças na pele, como o aspecto de casca de laranja, e saída espontânea de secreção sanguinolenta pelo mamilo.

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Nem toda alteração representa câncer, mas não é recomendado esperar o próximo exame de rotina para investigar algo diferente

Foi justamente a percepção de uma mudança no próprio corpo que levou Kátia, de 46 anos, a procurar atendimento. Técnica de enfermagem aposentada por invalidez, ela já convivia com problemas de saúde importantes, entre eles dois acidentes vasculares cerebrais (AVCs), o primeiro aos 27 anos, além de alterações na coluna. Aos 40, vivia um período que descreve como especialmente bom, depois de reencontrar amigas da infância e voltar a sair e aproveitar a vida.

O diagnóstico de câncer de mama não fazia parte de seus planos. Quando sentiu um caroço durante o autoexame, inicialmente teve dificuldade para aceitar que aquilo pudesse ser algo sério. Pediu ao marido que olhasse a região para confirmar se não estava imaginando a alteração.

Na consulta com um ginecologista em Suzano, porém, recebeu uma orientação que a tranquilizou indevidamente. Apesar do histórico familiar de câncer, o médico teria minimizado a preocupação porque os casos de câncer de próstata na família eram do lado paterno.

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A experiência evidencia uma informação importante: a história familiar não deve ser desconsiderada por envolver parentes do pai. Tanto o lado materno quanto o paterno podem contribuir para a avaliação de uma possível predisposição hereditária. Quando existem vários casos de câncer, diagnósticos em idades jovens ou determinados padrões familiares, pode ser necessário investigar o risco genético.

Kátia acabou procurando atendimento especializado no A.C. Camargo Cancer Center, em São Paulo, onde realizou os exames necessários. O processo de investigação e tratamento trouxe outras dificuldades, mas também mostrou a importância de receber informações claras sobre cada etapa.

Não existe uma forma universal de enfrentar a doença, o processo deve ser individualizado

Tatiana, de 41 anos, também técnica de enfermagem, conhecia a rotina hospitalar por trabalhar na área de oncologia. Mesmo assim, quando percebeu um caroço grande e palpável na parte inferior da mama esquerda, em agosto de 2023, não conseguiu afastar a preocupação.

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Ela procurou um ginecologista e fez uma ultrassonografia particular. Ao mostrar o resultado a profissionais com quem trabalhava no centro cirúrgico, foi encaminhada para uma biópsia. O exame confirmou o carcinoma de mama em setembro daquele ano.

A experiência de Tatiana mostra que o conhecimento técnico não impede o impacto emocional de uma doença que passa a fazer parte da própria história, observar é diferente de viver.

E como você vai vivenciar essa experiência é algo totalmente particular. Durante o tratamento, Taís continuou trabalhando e tentou preservar a rotina de exercícios, embora as dores e o cansaço tenham dificultado a prática.

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Para se manter ativa, chegou a fazer pequenas séries de agachamentos sem peso. Também tentou evitar a queda de cabelo com uma touca criogênica, mas decidiu raspar a cabeça em casa após a quarta sessão de quimioterapia neste ano, como já mencionado.

A palavra câncer faz parecer que nada virá depois

Receber o diagnóstico pode provocar uma sensação de ruptura. Planos que pareciam próximos passam a ser vistos com incerteza, e a paciente precisa assimilar informações sobre uma doença que pode exigir diferentes modalidades de tratamento.

Marta Souza, hoje com 57 anos, recebeu o diagnóstico em 2017, aos 47. Administradora de empresas e empresária na área de saúde e segurança do trabalho, ela vivia uma rotina profissional intensa e criava duas filhas que ainda estudavam. A notícia chegou acompanhada do medo de não acompanhar o crescimento das meninas.

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“Receber o diagnóstico foi assustador, como se tivesse recebido uma sentença de morte, medo de morrer e não ver minhas filhas”, conta.

Marta passou uma semana em um quarto escuro, tentando lidar com a possibilidade da própria morte. Foi ao olhar para as filhas que encontrou forças para enfrentar o medo. A equipe médica também teve um papel importante. Ela recorda o acolhimento do médico que a acompanhou e a ajudou a compreender que ainda havia vida depois do diagnóstico.

Nem todas as reações, porém, vieram acompanhadas de apoio. Marta ouviu comentários desanimadores de pessoas que associavam sua condição à morte ou passaram a tratá-la de maneira diferente por causa da doença. Entre as lembranças está a de ter ouvido que não havia sido convidada para uma festa porque estava com câncer.

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A experiência revela uma dimensão frequentemente esquecida no debate sobre a doença: a forma como familiares, amigos e conhecidos se relacionam com uma pessoa diagnosticada também pode interferir em sua experiência. O medo alheio, as comparações com outras pacientes e os prognósticos improvisados não substituem a informação médica e podem aumentar a angústia de quem já enfrenta um momento difícil.

Para Marta, o apoio da família e de amigas foi essencial. Anos depois, essa vivência se transformaria em um compromisso com outras mulheres que passam pelo mesmo processo.

Um tratamento diferente para cada mulher

O câncer de mama não é uma doença única em termos de comportamento biológico. O estágio em que é diagnosticado, as características do tumor e as condições clínicas da paciente influenciam as decisões sobre o tratamento.

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A oncologista Vivian Coski explica que a avaliação do tumor inclui exames anatomopatológicos e de imuno-histoquímica, que ajudam a identificar características importantes para a escolha da terapia. Entre os principais grupos estão os tumores hormonais, também chamados luminais, os tumores HER2 positivos e os triplo-negativos.

Essas diferenças são decisivas porque pacientes com o mesmo diagnóstico geral podem precisar de tratamentos distintos. Cirurgia, quimioterapia, radioterapia, hormonioterapia, imunoterapia e terapias-alvo podem ser utilizadas conforme as características da doença e a indicação clínica.

“Eu olho para cada pessoa de forma única e individualizada, não apenas como uma pessoa com um câncer, mas como uma pessoa integral”, afirma Vivian, ao descrever sua abordagem de atendimento.

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No caso de Kátia, a expectativa inicial era de que a retirada de parte da mama encerrasse o tratamento. Depois da cirurgia conservadora, no entanto, ela recebeu a notícia de que precisaria passar também por quimioterapia e radioterapia. O tumor tinha características agressivas, e a equipe considerou necessário complementar a cirurgia com outras terapias.

A palavra quimioterapia foi um dos momentos mais difíceis de sua trajetória. Kátia conta que, ao ouvir a explicação do oncologista, teve a sensação de que a sala estava vazia. Interrompeu o médico para perguntar se a retirada do tumor já não havia resolvido o problema.

A equipe explicou os motivos para a continuidade do tratamento e adaptou o planejamento às condições de saúde que ela já apresentava. A quimioterapia trouxe efeitos colaterais intensos, entre eles náuseas, queda de cabelo e alterações na pele. Na radioterapia, ela também sofreu queimaduras que exigiram cuidados locais.

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Em uma consulta de acolhimento, uma enfermeira explicou o que poderia acontecer durante o tratamento e perguntou se Kátia preferia usar peruca, prótese ou turbante. Ao perceber que ela ainda estava tentando assimilar tudo o que ouvia, a profissional disse que ela podia chorar e ela chorou.

Kátia se sentiu melhor por não disfarçar o que estava sentindo. Em meio a termos técnicos, procedimentos e efeitos colaterais, alguém reconheceu que aquela mulher também precisava de espaço para compreender o que estava acontecendo.

Tatiana percorreu outro caminho. Em novembro de 2023, passou por uma mastectomia à esquerda, com avaliação do linfonodo sentinela, exame utilizado para investigar possível comprometimento dos primeiros linfonodos para os quais o tumor poderia se disseminar. O resultado foi negativo, e não houve necessidade de esvaziamento axilar.

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Como a pele da região ficou muito fina para receber diretamente uma prótese definitiva, foi colocado um expansor mamário, que permite preparar a área para uma futura reconstrução. Ela passou por sessões de quimioterapia e manteve a hormonioterapia oral, prevista inicialmente para cinco anos.

Tatiana relata queda de cabelo, neuropatia e ganho de peso durante o tratamento. Também conviveu por cerca de dois anos e meio com o expansor, que descreve como duro, pouco flexível e doloroso. Em junho de 2026, realizou a cirurgia para substituí-lo por próteses de silicone nas duas mamas.

A reconstrução, nesse caso, não foi um acontecimento isolado, mas um processo prolongado, com etapas e desconfortos próprios. Ao contar essa parte da história, Tatiana também destaca que continuou realizando atividades de que gosta com familiares e amigos.

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A recuperação, portanto, não precisa significar que a vida fica suspensa até o fim do tratamento. Ela pode acontecer ao mesmo tempo que consultas, medicamentos, limitações físicas e adaptações à nova realidade.

Duas mamas, dois tumores e uma nova perspectiva

Na trajetória de Iraci, a investigação de um segundo nódulo trouxe outra surpresa. Embora os exames iniciais não tivessem identificado alterações na mama esquerda, o mastologista percebeu uma pequena área suspeita durante o exame clínico e decidiu encaminhá-la diretamente para biópsia.

O resultado confirmou um segundo câncer, com características diferentes daquele encontrado na mama direita. O primeiro tumor era de grau 2; o segundo, apesar de pequeno, era de grau 3.

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A descoberta ampliou o tratamento, mas também mudou a maneira como Iraci encarou a situação. Ela conta que, depois do primeiro diagnóstico, teve dificuldade para ouvir o médico e imaginou que morreria. Na segunda confirmação, conseguiu absorver a notícia de outra maneira.

A equipe organizou o tratamento para os dois tumores. Iraci passou por quimioterapia, com quatro ciclos do esquema que chamava de “vermelho” e outros 12 do esquema “branco”. Durante o período, tentou manter a rotina de trabalho, com a compreensão de sua empregadora de que poderia se afastar caso não conseguisse continuar.

O cabelo começou a cair cerca de duas semanas depois da primeira sessão. Ela havia planejado fazer uma peruca com os próprios fios, mas, quando a queda se intensificou, precisou raspar a cabeça antes que a peça ficasse pronta.

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A lembrança daquele momento ainda é marcada pela mistura do barulho da máquina raspando a cabeça e o silêncio da família. A cunhada, que era cabeleireira, ajudou a cortar os cabelos. Depois, ofereceu uma echarpe rosa. Na manhã seguinte, Iraci a amarrou, combinou a peça com a roupa e se olhou no espelho.

“Eu gostei de me ver”, recorda. A relação com a própria imagem também pode mudar durante a doença. O cabelo, para muitas mulheres, está ligado à identidade, à vaidade e à maneira como se reconhecem. A perda pode representar mais uma despedida em meio a tantas incertezas.

Mesmo durante a quimioterapia, Iraci continuou organizando a festa de 15 anos da filha. A primeira sessão do esquema branco aconteceu na véspera da comemoração. Ela queria estar presente e participar dos preparativos, ainda que precisasse adaptar a rotina.

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Depois da quimioterapia, passou por mastectomia bilateral. Ao despertar da cirurgia, sentiu gratidão por acreditar que havia retirado o câncer do corpo. As cicatrizes, conta, passaram a representar uma segunda chance de vida.

Ela fez cinco anos de tratamento com anastrozol e realizou a reconstrução mamária em 2022. Hoje, diz sentir-se curada e comemora o fim daquela etapa. A história também traz uma ressalva importante, a retirada do tumor e o encerramento do tratamento não significam que todas as pacientes tenham o mesmo percurso ou possam dispensar o acompanhamento médico.

Cada caso precisa seguir as orientações da equipe responsável, inclusive quanto à continuidade dos exames e à avaliação de possíveis efeitos tardios.

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A prevenção não depende de um único hábito

As histórias de Iraci, Kátia, Tatiana, Thaís e Marta mostram que o câncer de mama pode atingir mulheres com trajetórias, idades e históricos de saúde diferentes. Também ajudam a desfazer a ideia de que existe uma causa isolada ou uma forma infalível de evitar a doença.

A idade é um dos fatores de risco mais importantes, mas a ocorrência de câncer de mama não se limita às mulheres mais velhas. O histórico familiar e determinadas alterações genéticas podem aumentar o risco, enquanto hábitos como sedentarismo, excesso de peso e consumo de bebidas alcoólicas são fatores modificáveis que merecem atenção.

Larissa Pires destaca que a prática regular de atividade física, a alimentação equilibrada e o cuidado com o peso contribuem para a saúde geral e podem ajudar a reduzir o risco. Evitar bebidas alcoólicas também é uma medida recomendada. A amamentação, por sua vez, está associada à proteção contra o câncer de mama.

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Isso não significa que mulheres que desenvolvem a doença tenham falhado em seus cuidados. Como se trata de uma condição multifatorial, hábitos saudáveis não garantem proteção completa, assim como o diagnóstico não comprova que a paciente tenha feito algo errado.

O acompanhamento médico e os exames de rastreamento indicados para cada mulher continuam sendo parte essencial do cuidado. A mamografia pode identificar alterações antes que sejam palpáveis, enquanto a investigação de sintomas deve ser realizada sempre que houver uma mudança suspeita, mesmo em mulheres mais jovens.

Vivian Coski reforça que o autoexame não deve ser a única estratégia de detecção. Conhecer o próprio corpo ajuda a perceber alterações, mas não substitui os exames de rastreamento quando indicados. A recomendação sobre quando iniciar a mamografia deve considerar as diretrizes adotadas e a avaliação individual do risco.

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Também é importante distinguir rastreamento de investigação diagnóstica: a mulher que percebe um nódulo não deve esperar chegar à idade recomendada para os exames de rotina para procurar atendimento.

A vida depois do diagnóstico

Marta concluiu a radioterapia e passou cinco anos em hormonioterapia. Recebeu alta em 2022, mas não considera que o medo tenha desaparecido por completo.

“Me considero curada, tive alta total em 2022”, conta. Ainda assim, a proximidade dos exames de acompanhamento pode trazer de volta a angústia. Ela descreve essa sensação como um fantasma que reaparece quando chega a hora de verificar se está tudo bem.

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O relato ajuda a compreender que a recuperação não é necessariamente linear. O tratamento pode terminar, os cabelos podem crescer novamente, a rotina pode ser retomada e os planos podem ganhar novos contornos. Mesmo assim, algumas lembranças permanecem, e a possibilidade de uma recidiva pode continuar provocando insegurança.

Hoje, Marta passou a atuar na causa oncológica. É cofundadora de um grupo virtual de acolhimento que reúne quase 200 mulheres em tratamento e utiliza o espaço para promover escuta, troca de experiências e apoio. Também participa do movimento Todos Juntos Contra o Câncer.

Ela mantém a página @crescente_recomeco, pela qual oferece acolhimento a mulheres que estão enfrentando o diagnóstico. Sua orientação é que as pacientes procurem compreender a própria condição, mantenham proximidade com os médicos e, quando possível, encontrem organizações ou grupos de apoio.

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A experiência de Marta se aproxima da de outras mulheres que encontraram na convivência com pacientes e ex-pacientes uma forma de atravessar a doença. O apoio não substitui o tratamento, mas pode oferecer espaço para compartilhar dúvidas e sentimentos que nem sempre encontram lugar na rotina de consultas.

Kátia desenvolveu uma iniciativa solidária de confecção e doação de turbantes e lenços para pessoas em tratamento contra o câncer. O projeto começou com a vontade de ajudar outras pacientes e cresceu com o apoio de voluntários, incluindo uma costureira responsável por transformar os tecidos arrecadados em peças. Para viabilizar as doações, ela procurava tecidos e lenços e entrava em contato com a assistência social de hospitais e instituições oncológicas, que recebiam os materiais para distribuí-los às pacientes.

Ao longo da iniciativa, foram confeccionados mais de mil turbantes, além de lenços arrecadados durante a campanha. Kátia também realizou palestras e estabeleceu contato com instituições de Mogi das Cruzes, como o GAPC.

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Rastreio é importante pois câncer de mama diagnosticado em fases iniciais possui grande taxa de cura

Vivian Coski lembra que há chances de cura para o câncer de mama diagnosticado em fases iniciais e possibilidades de controle prolongado e qualidade de vida para pacientes com doença metastática. A evolução da oncologia de precisão permite que tratamentos sejam escolhidos com base nas características de cada tumor, em vez de considerar apenas o nome geral da doença.

A oncologista ressalta que o cuidado deve levar em conta a pessoa por inteiro, não apenas o tumor. Isso inclui as condições clínicas, as necessidades emocionais e as circunstâncias que influenciam a vida durante o tratamento.

Para Iraci, o fim dos cinco anos de medicação foi uma vitória. Para Tatiana, a reconstrução mamária marcou uma nova etapa depois de um período prolongado com o expansor. Para Thaís, é importante ser vulnerável e não desistir da luta. Para Kátia e Marta, a experiência se transformou em uma forma de acolher outras pacientes.

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São histórias diferentes, com tratamentos, desafios e sentimentos que não podem ser reduzidos a uma única narrativa de superação. Em comum, elas mostram que o câncer de mama não se resume ao momento em que o diagnóstico é anunciado, nem ao dia em que a última medicação é tomada.

A doença modifica a relação com o corpo, reorganiza prioridades e coloca o futuro sob uma perspectiva diferente. Mas também pode ser atravessada com informação, acompanhamento, acesso ao tratamento e redes de apoio que respeitem o tempo e as necessidades de cada mulher.