Sua pele valia tanto que o gigante da Amazônia chegou perto da extinção, mas uma história fascinante atravessou gerações

Utilizado na fabricação de correias, mangueiras e peças industriais, o couro de um dos maiores mamíferos aquáticos da Amazônia alimentou uma exploração devastadora entre 1935 e 1954

Peixe-boi

Apesar de seu tamanho, o peixe-boi-da-amazônia é um animal herbívoro, que se alimenta de plantas aquáticas e de vegetação/Divulgação/Inpa

Durante décadas, um dos gigantes dos rios amazônicos teve um destino cruel: sua pele, valorizada pela indústria, tornou-se o principal motivo de uma caça em larga escala.

Continua após a publicidade

O resultado foi devastador. Entre 1935 e 1954, estimativas apontam que de 80 mil a 140 mil animais foram mortos, sem contar aqueles abatidos para a subsistência de comunidades locais.

O protagonista dessa história é o peixe-boi-da-amazônia (Trichechus inunguis), um mamífero aquático que vive exclusivamente em água doce e faz parte da fauna característica da maior floresta tropical do planeta.

O couro que alimentou uma caça devastadora

A exploração comercial ganhou força na primeira metade do século 20. Na época, o couro do peixe-boi chamava a atenção pela espessura e pela resistência, características que permitiam sua utilização na fabricação de diferentes produtos industriais.

Continua após a publicidade

Entre os artigos produzidos estavam correias de transmissão, mangueiras e polias, peças empregadas em máquinas e equipamentos.

O material tinha valor comercial e ajudava a movimentar um mercado que pressionava cada vez mais as populações do animal.

Segundo estimativas reunidas na avaliação da fauna brasileira ameaçada de extinção, a exploração entre 1935 e 1954 provocou a morte de dezenas de milhares de indivíduos.

Continua após a publicidade

O número impressiona ainda mais porque não inclui todos os animais abatidos para alimentação.

A pressão diminuiu a partir da segunda metade da década de 1950, com mudanças no mercado e a chegada de materiais alternativos. Isso, porém, não apagou os efeitos da caça sobre a espécie.

Um gigante dos rios que também desperta curiosidade

Apesar de seu tamanho, o peixe-boi-da-amazônia é um animal herbívoro, que se alimenta de plantas aquáticas e de vegetação encontrada em áreas alagadas.

Continua após a publicidade

A espécie pode atingir cerca de três metros de comprimento e pesar centenas de quilos. Seu corpo robusto e sua cauda achatada ajudam na locomoção, enquanto as nadadeiras dianteiras permitem manobras em ambientes aquáticos.

O animal também pertence à ordem dos sirênios, grupo de mamíferos aquáticos que inclui outras espécies de peixes-bois e os dugongos.

Essa relação ajuda a explicar uma curiosidade histórica: ao longo dos séculos, relatos de encontros com esses animais foram associados às lendárias sereias.

Continua após a publicidade

Em 1493, durante sua viagem pelo Caribe, Cristóvão Colombo registrou ter avistado criaturas que identificou como sereias.

Pesquisadores e instituições científicas relacionam relatos desse tipo a possíveis confusões com peixes-bois e outros mamíferos aquáticos. Não há, porém, comprovação de que esses animais tenham originado a lenda das sereias.

A ameaça não terminou com a caça comercial

Mesmo com a redução da exploração voltada à indústria, o peixe-boi-da-amazônia continuou enfrentando riscos. A caça ilegal, a captura acidental em redes de pesca e a degradação dos ambientes aquáticos estão entre os problemas que afetam a espécie.

Continua após a publicidade

A reprodução também torna a recuperação populacional um processo lento. A gestação pode durar cerca de 13 meses, e o filhote pode permanecer em amamentação por até dois anos.

Esse intervalo limita a velocidade com que as populações conseguem se recuperar quando perdem muitos indivíduos.

O Instituto Mamirauá destaca que a caça de subsistência e o comércio ilegal de carne ainda representam desafios em áreas da Amazônia. A proteção legal, portanto, não elimina automaticamente a pressão sobre o animal.

Continua após a publicidade

A história do peixe-boi-da-amazônia mostra como o valor comercial de uma parte do corpo de um animal pode desencadear uma exploração de grandes proporções.

O couro que impulsionou a caça deixou uma marca profunda na espécie, cuja conservação depende da proteção dos rios, da fiscalização e do envolvimento das comunidades que vivem na região.