Muito antes de o asfalto cobrir o solo vermelho do Centro-Oeste, uma estrutura de acolhimento já funcionava em ritmo acelerado no coração do País.
Criado em 1957, o Jardim Zoológico de Brasília foi inaugurado três anos antes da capital federal. A instituição surgiu para responder a uma demanda urgente de manejo da fauna ao resgatar e proteger as espécies nativas do Cerrado desalojadas pelos tratores das grandes obras urbanas.
O principal refúgio nos acampamentos da construção
Localizado a pouco mais de 10 quilômetros do centro das empreiteiras, o espaço rapidamente superou sua função ecológica para assumir um papel social decisivo.
Em meio a jornadas exaustivas e poeira constante, os milhares de operários migrantes, vindos em grande parte do Nordeste, encontraram naquelas alamedas arborizadas a única opção de lazer e descanso mental aos fins de semana.
O local funcionou como um verdadeiro oásis comunitário para quem deixou suas famílias para trás para erguer Brasília.
Solidariedade sem fronteiras e a ponte aérea por Nely
A força dessa comunidade com o parque ficou registrada na relação com os próprios animais. A elefanta Nely, principal xodó dos visitantes nas primeiras décadas, protagonizou um dos capítulos mais marcantes da cidadania local.
Quando o animal adoeceu de forma grave nos anos 90, uma rede de solidariedade uniu moradores e empresários locais, que mobilizaram um avião particular para buscar insumos médicos específicos em São Paulo.
A comoção pela perda do animal sensibilizou o mundo e fez com que o líder Nelson Mandela presenteasse a cidade com dois elefantes sul-africanos.
Legado humano e transformação em modelo público
O heroísmo também marcou o nome oficial do espaço, batizado como Jardim Zoológico Sargento Sílvio Delmar Hollenbach em tributo ao militar que faleceu em 1977 após saltar no fosso das ariranhas para salvar um garoto de 12 anos.
Décadas depois, aquele ponto de apoio improvisado no canteiro de obras se consolidou como uma referência internacional de gestão pública.
Hoje, credenciado pela prestigiada Associação Mundial de Zoos e Aquários (WAZA), o local combina o tratamento geriátrico de animais veteranos, como a hipopótama Bárbara, de 42 anos, com pesquisas históricas, como a primeira aplicação mundial de células-tronco na recuperação de um lobo-guará atropelado.












