‘Escudo’ no diesel: como o governo tenta barrar o efeito da guerra no preço da comida

Com o petróleo acima de US$ 100, Brasília zera impostos para evitar que a alta internacional chegue ao frete e ao supermercado

Abrava (Associação Brasileira dos Condutores de Veículos Automotores) apontou 'evidências de práticas abusivas por parte de distribuidoras de combustíveis'

lívio na bomba: com a nova política de desoneração, o preço do diesel recuou em média R$ 0,64 por litro em março, enquanto a gasolina se mantém estável em torno de R$ 6,30 sob a cautela do governo | Marcelo Camargo/Agência Brasil

A escalada do preço do petróleo no mercado internacional, impulsionada pela recente tensão geopolítica envolvendo o Irã, voltou a colocar a política de preços da Petrobras e a tributação sobre combustíveis no centro do debate econômico. Para o consumidor, a pergunta é direta: o preço na bomba pode subir?

Apesar da pressão externa, o Governo do Brasil e a Petrobras adotaram medidas para tentar amortecer parte desse impacto, com foco principalmente no diesel — combustível considerado estratégico para o transporte de cargas e para a cadeia de abastecimento de alimentos.

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Gradualismo: a barreira da Petrobras contra o dólar e a guerra

Diferentemente do modelo adotado em anos anteriores, a Petrobras não utiliza mais de forma automática o chamado Preço de Paridade de Importação (PPI).

Desde 2023, a empresa passou a adotar um modelo que considera referências internacionais — como o petróleo Brent e a cotação do dólar — mas também leva em conta fatores internos, como custos de produção no país e logística de distribuição.

Segundo declarações recentes da presidente da companhia, Magda Chambriard, a política busca evitar repasses imediatos de oscilações externas, permitindo ajustes mais graduais nos preços praticados nas refinarias.

Estimativas de mercado indicam que, em alguns momentos, pode haver diferença entre os preços domésticos e a paridade internacional, dependendo das condições do mercado.

Blindagem do diesel: o plano para salvar o frete e o prato de comida

Diante da alta do petróleo, o governo optou por priorizar medidas voltadas ao diesel.

A decisão tem relação direta com o impacto desse combustível sobre o custo do transporte de mercadorias. Como grande parte da logística brasileira depende de caminhões, variações no diesel costumam se refletir rapidamente nos preços de alimentos e outros produtos.

Por meio da Medida Provisória nº 1.340/2026, o governo instituiu uma subvenção ao combustível, enquanto o Decreto nº 12.875 zerou temporariamente as alíquotas de PIS/Cofins sobre o diesel. Juntas, as medidas representam um alívio estimado em cerca de R$0,64 por litro.

A Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) informou que monitora a aplicação do desconto nos postos para verificar se a redução chega ao consumidor final. Em caso de irregularidades, a legislação prevê sanções administrativas.

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Autonomia sob teste: o limite entre o lucro e a função social

O debate sobre a atuação do governo nos preços dos combustíveis também remete a experiências anteriores.

Durante o governo de Dilma Rousseff, a Petrobras foi utilizada para conter reajustes e ajudar no controle da inflação. Analistas apontam que a estratégia trouxe alívio temporário para os consumidores, mas também gerou impactos financeiros relevantes para a companhia naquele período.

No modelo atual, segundo especialistas do setor, a tentativa tem sido buscar um equilíbrio entre a política comercial da estatal e medidas fiscais que possam suavizar os efeitos de choques externos no curto prazo.

E a gasolina?

Para os motoristas de carros de passeio, o cenário atual é de relativa estabilidade.

Não há, por enquanto, previsão de medidas semelhantes de desoneração para gasolina ou etanol. Dados recentes da ANP indicam que o preço médio da gasolina no país tem permanecido próximo de R$ 6,30 por litro.

Já o diesel registrava média em torno de R$ 6,08 antes da implementação das medidas de alívio tributário.

Robin Hood energético: quem paga a conta do diesel mais barato?

A redução de impostos e a subvenção ao diesel têm impacto nas contas públicas. Estimativas do governo apontam um custo fiscal de cerca de R$ 30 bilhões em 2026.

Para compensar parte dessa renúncia, a Medida Provisória nº 1.340 criou um imposto de exportação de 12% sobre o petróleo bruto, além de uma taxação adicional sobre exportações de diesel.

Na prática, a estratégia busca utilizar a arrecadação obtida com a venda de petróleo ao exterior para financiar o alívio tributário aplicado ao combustível consumido no mercado interno.

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O fator Irã: até quando o “escudo” do governo resiste?

As medidas anunciadas possuem prazos diferentes. A zeragem do PIS/Cofins sobre o diesel está prevista, inicialmente, até 31 de maio de 2026, enquanto a subvenção econômica pode permanecer em vigor até dezembro, respeitado o limite orçamentário definido pelo governo.

Caso as desonerações não sejam prorrogadas após maio, o custo do diesel e do frete pode voltar a sofrer pressão.
Nesse cenário, a evolução do preço internacional do petróleo — influenciada por fatores geopolíticos e pela dinâmica do mercado global de energia — tende a continuar sendo um dos principais elementos a definir o comportamento dos combustíveis no Brasil nos próximos meses.