A cantora Adriana Moreira volta aos trabalhos de estúdio e acaba de lançar “Roda”, um álbum-conceito que traz elementos políticos e espirituais da cultura afro-brasileira. Trata-se do terceiro trabalho de estúdio da artista paulistana.
No lançamento, a sonoridade atravessa diferentes camadas da música brasileira com base no samba, mas expande seus limites ao dialogar com batucadas e levadas rítmicas de escolas de samba, elementos do pagode dos anos 1990, orquestras pretas brasileiras e concertos populares.
A direção musical e os arranjos do maestro e trombonista Allan Abbadia constroem uma arquitetura sonora sofisticada, pela qual tradição e modernidade coexistem sem hierarquia.
O repertório aborda temas como amor, vitória coletiva, denúncia do genocídio do povo preto, luta por território, memória ancestral e esperança. O discurso lírico articula afirmação identitária e consciência política sem abandonar o lirismo e potência melódica.
A presença de composições assinadas por diferentes autores, incluindo obras criadas por Raphael Moreira e Pedro Moreira, seus filhos, reforça o conceito de circularidade geracional: herança, continuidade e renovação dentro da própria estrutura do disco. Um coro de vozes infantis amplia essa dimensão simbólica, projetando futuro e permanência.
Produzido pela YB Music, “Roda” foi desenvolvido ao longo de nove anos de maturação estética. O número nove que dialoga com a ancestralidade feminina e a cosmologia de Oyá estrutura o álbum tanto simbolicamente quanto conceitualmente, já que cada faixa funciona como eixo temático de um ciclo maior.
Mais do que um registro fonográfico, o álbum é uma obra que articula técnica, pensamento negro contemporâneo e sofisticação musical. O disco se posiciona no campo da música brasileira atual como produção de forte identidade autoral e alta capacidade de diálogo internacional, tanto para circulação em festivais quanto para inserção em audiovisual.
