‘Quem sabe eu ainda sou uma garotinha’: Cássia Eller e sua transição de menina tímida para o furacão dos palcos

Artista chegou à cidade nos anos 1980 e encontrou na cena cultural local a infraestrutura ideal para desenvolver a vocação plural

Antes da fama nacional, Cássia Eller desenvolveu sua vocação artística plural na efervescente cena cultural de Brasília / Divulgação

A história da cantora Cassia Eller em Brasília funcionou como o verdadeiro laboratório musical, técnico e pessoal que transformou uma jovem carioca tímida de 18 anos na maior voz do rock brasileiro. 

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Desembarcando na capital federal no início dos anos 1980 para morar com a família no Setor Militar Urbano (SMU), a cantora encontrou na arquitetura e no efervescente cenário cultural brasiliense a infraestrutura ideal para libertar sua vocação artística plural, muito antes de lotar estádios pelo País.

Palcos e bares da cena brasiliense

O pontapé profissional da cantora na capital aconteceu entre 1981 e 1982, quando o diretor Oswaldo Montenegro selecionou a jovem para integrar o elenco do musical Veja Você, Brasília.

A partir dessa primeira experiência nos palcos, a história da Cassia Eller em brasília ganhou ritmo acelerado com testes vocais diários na Sala Villa-Lobos e no complexo da Fundação Nacional de Artes (Funarte).

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Recusando rótulos precoces, Cássia construiu uma bagagem sólida ao transitar por corais de música erudita, apresentações de canto lírico, a montagem da ópera Porgy and Bess e o grupo Malas e Bagagens, idealizado pela pianista Dora Galesso.

A diversidade de projetos marcou a consolidação da artista na capital durante toda a década. Cássia soltou a voz no trio elétrico Massa Real durante os carnavais locais, atuou na peça teatral Gigolôs, ao lado dos atores Marcelo Saback e Alexandre Ribondi, e gravou a trilha sonora do curta-metragem Patativa do Assaré, um poeta do povo, obra premiada no Festival de Brasília do Cinema Brasileiro de 1984.

O contato com o rock nacional, que mais tarde a consagrou, só ocorreu entre 1986 e 1987, após anos de vivência profunda no samba e na Música Popular Brasileira (MPB).

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Amizades e relacionamentos na capital

As noites boêmias da capital selaram a afirmação pessoal, a liberdade afetiva e a evolução técnica da cantora. O tradicional restaurante Beirute tornou-se o ponto de encontro diário de Cássia com parceiros de palco, como Janette Dornellas e Dora Galesso.

Foi no DF que a artista viveu relacionamentos intensos, registrados em cartas trocadas entre 1983 e 1984 com Elisa Alencar, e onde conheceu a baiana Maria Eugênia Vieira Martins, no Beirute em 1987, que se tornaria sua companheira por toda a vida.

Muito antes de a gente se conhecer pessoalmente eu tinha visto um número só dela num show do Oswaldo Montenegro e aquilo me impressionou muito. Lembro de momentos em que a gente estava no Beirute, que era o bar da moda. E a gente se conheceu mesmo através de um amigo em comum, na casa dela e de uma namorada. A Cássia era muito tímida, eu achava que ela não ia muito com a minha cara. Eu chegava, ela calava, saía… Eu achava estranho, mas depois, quando a conheci melhor, percebi que era mais a questão da timidez. E, quando aconteceu, foi fulminante, declarou Eugênia ao O Globo.

Retorno consagrado e legado musical

O encerramento do ciclo da artista com a capital aconteceu em grande estilo no dia 7 de agosto de 2001, quando Cássia Eller realizou seu último show na cidade, lotando a Sala Villa-Lobos ao lado de Nando Reis.

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A consagração definitiva da história da Cassia Eller em Brasília foi oficializada pela Câmara Legislativa do Distrito Federal (CLDF), que concedeu à cantora o título de Cidadã Honorária de Brasília em cerimônia no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB), eternizando a capital como o solo mais fértil de sua trajetória.

No final do último ano, 25 anos após a sua morte, Cássia Eller foi homenageada no Parque Ibirapuera.