A temporada de 2025 de “Wicked” foi um verdadeiro sucesso entre antigos e novos fãs de teatro musical. Para além das já consagradas Myra Ruiz e Fabi Bang, outro nome se destacou em meio à multidão de estudantes da Universidade de Shiz: Hipólyto. Aos 27 anos, o ator encarou de frente o desafio de interpretar um dos personagens-chave do espetáculo, o mocinho Fiyero.
Em entrevista exclusiva à Gazeta, Hipólyto falou sobre sua visão do personagem, o processo de preparação para o papel, o primeiro contato com a arte e adiantou detalhes de seus novos projetos.
Primeiros passos
Nascido no Rio de Janeiro, o ator descobriu a atuação ainda criança, aos 9 anos de idade, e não esconde os desafios enfrentados até chegar aos palcos dos grandes musicais.
“Eu fui uma criança artista em um lugar que não tinham muitas crianças artistas, nem artistas em geral. Sofri todo tipo de preconceito, desde o estilo de roupa que eu usava até me dizerem que ser artista não era profissão, que não me daria um futuro”, relembra.
Já no Ensino Médio, ainda tentando encontrar uma “profissão de verdade”, Hipólyto passou a atuar nos bastidores dos espetáculos, mais especificamente na área de iluminação. Foi ali que algo mudou.
“Eu estava bem no alto de uma escada, montando as luzes de um espetáculo. Olhei pra baixo, vi o palco, vi os atores e percebi que era lá embaixo que eu queria estar.”
Trajetória em “Wicked”
Antes de “Wicked”, Hipólyto já havia vivido outro mocinho: Emmett, de “Legalmente Loira”, na temporada de 2024 do musical. Na montagem, ele também contracenou com Myra Ruiz, intérprete da protagonista Elle Woods, e, em 2025, da verde Elphaba na história derivada de “O Mágico de Oz”.
Fiyero, no entanto, tem suas particularidades. Apresentado no início da trama como uma espécie de playboy inconsequente, o personagem amadurece ao longo do espetáculo e se transforma em um dos eixos centrais da narrativa.
“Eu acho que a virada do Fiyero começa lá no finalzinho do primeiro ato, quando ele passa a olhar de um jeito diferente para a Elphaba. Mas a virada mesmo acontece no segundo ato, quando ele tá lá com a Elphaba na árvore, que também é um lugar importante pro personagem. Muitas coisas acontecem com ele ali.”
Em um musical, como o nome já diz, as canções são parte fundamental da construção dramática. Para Hipólyto, uma delas exigia atenção redobrada no espetáculo:
“As Long As You’re Mine (Se Eu Tenho Você) sempre me deixava meio em alerta, porque é uma música muito aguda. Inclusive, na época das audições, foi a que eu mais batalhei para aprender. Acho que só nos últimos três meses de temporada ela começou a ficar mais tranquila, quando eu consegui relaxar em cena.”
Conexão com o público
Para o ator, um dos pontos cruciais para o sucesso de “Wicked” é a conexão com o público. O teatro, segundo ele, é um espaço potente de afeto e reflexão. Hipólyto também comentou sobre a possível pressão de apresentar um “novo” Fiyero ao público, considerando que esta foi a terceira montagem do musical no Brasil, além do impacto recente dos dois filmes que ampliaram ainda mais a fan base da obra.
“Eu não senti tanta pressão, porque percebi que o público aceitou muito rápido. Acho que eles gostaram logo de cara desse ‘Wicked’. Com certeza teve comparação, é inevitável, mas o público foi muito receptivo.”
Sobre o retorno que recebeu de quem assistiu ao espetáculo, o ator revela a frase que mais ouviu ao longo da temporada:
“Você é o melhor Fiyero que já passou por ‘Wicked’. E isso me motivou muito”, afirma. “Eu entrei no musical sem saber se ia conseguir fazer. Muita gente já dizia, antes mesmo de eu saber se ‘Wicked’ voltaria, que eu precisava fazer o Fiyero. Eu achava que poderia ser demais. Tinha planos para o personagem que eu não sabia se conseguiria realizar, e ouvir esses feedbacks me deu muita força.”
Hipólyto conta que “Wicked” também lhe ensinou sobre constância e resistência no teatro. “Não é uma peça fácil. Para contar essa história, a gente precisava de muita energia. Foi uma malhação mesmo, de treino, a gente não parava. Aprendi a conhecer mais o meu corpo, a minha voz, até onde eu consigo ir.”
Em dias de cansaço extremo, porém, houve momentos de dúvida. “Às vezes eu pensava que não ia dar, mas chega no palco a gente dá um jeito e vai.”
Para ele, o impacto da obra ultrapassou o palco. “Não tem como fazer ou assistir ‘Wicked’ e não prestar atenção nos aprendizados. Mesmo sendo metafórico, a gente sempre consegue linkar a história com a sociedade. Temos uma bruxa verde falando sobre preconceito, sobre cor da pele. Isso é muito atual.”
Vivendo uma fase de maior visibilidade, Hipólyto mantém os pés no chão. Reconhece a importância do momento, mas reforça o desejo de seguir trabalhando, aprendendo e se desafiando. “Wicked” representa uma conquista, e, ao mesmo tempo, um impulso para tudo o que ainda está por vir.
Próximos passos
Encerrada a temporada de Wicked em 2025, e ainda sem confirmação de estará na temporada carioca do espetáculo, Hipólyto já projeta os próximos movimentos da carreira. Um deles é o Sambelting, show que nasceu de maneira informal, a partir de conversas de camarim e já fez duas edições.
“O Sambelting surgiu de uma conversa de camarim”, conta. “Eu já tinha vontade de fazer show, de samba e pagode. E o Tadeu Torres tinha uma ideia de fazer um samba com pessoas do teatro musical. A gente conversando de um dia pro outro, ele lançou: ‘Pô, por que a gente não faz?’. Eu falei: ‘Mano, acho que vai ser genial. Por que não?’. E aí surgiu o Sambelting.”
A ideia, segundo ele, foi e voltou até se concretizar. “A gente teve a ideia, parou de ter a ideia, e aí, de repente, voltou com a ideia. E quando voltou, foi até o final. Agora já tá aí, nasceu”, resume.
Além de Hipólyto e Tadeu, o projeto também conta com Thales César A experiência, segundo o ator, foi tão positiva que a intenção é dar continuidade ao show. “Foi gostoso de fazer, foi bom, a gente foi bem acolhido. A ideia é fazer sempre. Acho que o Sambelting, neste ano de 2026, vai ter bastante edições, alguns bons meses de Sambelting. Pelo menos, essa é a nossa ideia.”
No palco, diferente dos musicais, Hipólyto se apresenta sem personagens. “No show sou eu mesmo”, explica. “Eu sempre fui cantor, já cantava antes. Então essa sensação é mais um revisitar do que explorar algo novo. Já é familiar pra mim.”
O ator lembra que já realizou apresentações solo desde que chegou a São Paulo. Ainda assim, destaca a diferença entre o show e o teatro musical. “Personagem você precisa contar uma história que é daquela franquia, daquele jeito, tudo ensaiado. Como Hipólyto, eu tenho uma liberdade diferente. O show é nosso, eu não tenho franquia. Eu preciso cantar a música e alegrar o público. Essa é a diferença.
Na telinha
Além dos palcos, Hipólyto também se prepara para estrear no cinema com o longa “Pecadora”, que tem lançamento previsto para este ano. “A gente gravou no início de 2025”, conta.
Na produção, adaptação do best-seller de Nana Pauvolih, Hipólyto vive um dos papéis mais desafiadores de sua trajetória. “Foi um personagem bem difícil de conseguir fazer”, afirma. “Diferente do Fiyero, eu não colava tanto nesse personagem. Ele era totalmente fora do que eu sou.”
A transformação exigiu mudanças físicas e emocionais. “Eu tive que mudar visual, mudar tatuagem, tirar tatuagem. Era um cara completamente diferente”, relembra. “Pra mim, como ator, foi um dos personagens mais desafiadores que eu tive até agora.”
Produzido pela +Galeria e pelo Grupo Telefilmes, Pecadora é estrelado por José Loreto, Marcos Pasquim e Rayssa Bratillieri. Na trama, Isabel (Bratillieri), uma jovem profundamente religiosa, vê sua vida mudar ao começar a trabalhar com Enrico (Loreto), um homem livre e sedutor.
A relação a leva a questionar crenças, desejos e limites, em uma jornada de autoconhecimento marcada por conflitos internos e transformações profundas. Marcos Pasquim interpreta o pastor Sebastião, pai da protagonista. O filme é dirigido por Dainara Toffoli e tem roteiro de Camila Raffanti.
Hipólyto admite a ansiedade pela estreia. “Eu ainda não vi o filme inteiro, só pequenos pedaços”, revela. “Mas acho que sai ainda no primeiro semestre. Eu tô bem ansioso, porque foi um filme bem legal, bem bacana de fazer.”






