Dia das mães: como a ‘Síndrome da Mulher Maravilha’ pode estar acabando com seu negócio

Mulheres por todo o mundo acreditam que podem dar conta de tudo, mas isso cobra um preço alto ao psicológico e ao trabalho

Trabalhar, cuidar dos filhos e da casa podem consumir a energia de uma mulher

Trabalhar, cuidar dos filhos e da casa podem consumir a energia de uma mulher | Freepik

Existe um perfil que o Brasil aprendeu a celebrar. Ela acorda cedo, resolve tudo, não reclama, não delega, não para. Quando alguém pergunta como ela está, a resposta é sempre a mesma: “corrida, mas bem.”

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Esse perfil tem nome. A literatura de gestão chama de “Síndrome da Mulher Maravilha”. E, enquanto o mercado aplaude, os números contam uma história diferente.

Em 2025, o Brasil bateu pelo segundo ano consecutivo o recorde de afastamentos por saúde mental no trabalho. Mais de 546 mil licenças concedidas. Um aumento de 15% em relação ao ano anterior. E 63% dessas licenças foram para mulheres.

Segundo Priscila Guskuma, especialista em negócios, isso não é coincidência, mas sim padrão.

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Dar conta de tudo ultrapassa o limite

No empreendedorismo, esse padrão não diminui. Ele se intensifica. A mulher passa a concentrar todas as áreas do negócio. Decide, executa, vende, organiza, resolve. Muitas vezes, tudo isso ao mesmo tempo em que também responde pela casa e pela família.

O problema é que o que parece força, na prática, cobra um preço alto. Existe uma sensação constante de que nunca é suficiente. Mesmo fazendo muito, sempre parece que ficou algo para trás. E, com o tempo, essa sensação deixa de ser pontual e passa a ser rotina.

E é nesse ponto que o negócio começa a refletir esse desgaste. Empresas muito centralizadas até funcionam, mas não evoluem. Crescem devagar, acumulam falhas operacionais e dependem demais de quem está à frente. O negócio gira, mas não ganha estrutura para ir além.

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Estrutura da empreendedora

E o crescimento desse movimento é real: segundo o Sebrae, o Brasil possui hoje 10,4 milhões de empreendedoras, um aumento de 42% desde 2012. Dados da ABF mostram que 32,2% das franquias já são comandadas por mulheres, e negócios liderados por elas apresentam 20% menos inadimplência do que os comandados por homens, segundo a Serasa Experian.

O que diferencia quem cresce de quem apenas sobrevive não é o motivo da entrada, mas a forma como o negócio é conduzido ao longo do tempo. Conhecimento, inovação e, principalmente, o uso de tecnologia deixam de ser diferenciais e passam a ser condição.

Sem isso, a empresa depende exclusivamente do esforço da empreendedora. E esforço, por si só, não escala.
Empresas saudáveis não se sustentam na capacidade de alguém “dar conta”. Elas se sustentam em estrutura.

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Isso significa ter pessoas preparadas e bem-posicionadas, processos que garantam consistência sem depender de improviso, um comercial que funcione com método e não por tentativa, e uma leitura clara da lucratividade.

Desafios não chegam sozinhos

Além da gestão do negócio, existe um contexto que amplia essa pressão. Muitas mulheres ainda enfrentam insegurança sobre sua própria capacidade, dificuldade em se posicionar e a necessidade constante de provar valor. O espaço foi conquistado, mas a cobrança não diminuiu.

A isso se soma a dupla jornada, especialmente para quem é mãe. O resultado não é apenas cansaço. É conflito. Ao priorizar o trabalho, surge a culpa. Ao priorizar a família, vem a pressão pelo desempenho.  E, no meio disso, se instala a sensação de estar sempre em dívida com alguma área da vida. 

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O ponto de virada

O crescimento de uma empresa não acontece quando a empreendedora faz mais. Acontece quando ela deixa de ser o centro de tudo.

Organizar, delegar, estruturar e tomar decisões com base em dados não são etapas avançadas. São o que permite que o negócio exista sem depender exclusivamente de quem o criou.

Enquanto dar conta de tudo continuar sendo visto como qualidade, muitas empresas vão continuar limitadas ao esforço individual de quem as conduz. Dar conta de tudo sustenta o presente, mas é a estrutura que constrói o crescimento.