Bebês chegam ao mundo com uma habilidade surpreendente: o cérebro consegue perceber, de forma automática, quando há mais ou menos objetos em um ambiente. Um novo estudo da Universidade de Trento identificou, pela primeira vez, como esse mecanismo funciona poucas horas após o nascimento.
Os pesquisadores observaram que recém-nascidos com até três dias de vida diferenciam pequenas e grandes quantidades antes mesmo de aprender a falar ou de receber qualquer tipo de ensino. A descoberta ajuda a entender como o cérebro constrói, anos depois, as habilidades matemáticas.
Na prática, isso não significa que um bebê saiba contar. O cérebro apenas reconhece rapidamente diferenças de quantidade, como perceber que há muitos objetos em um lugar e poucos em outro.
Essa capacidade pode ter ajudado os seres humanos a sobreviver ao longo da evolução e continua sendo importante para o desenvolvimento infantil.
O que significa perceber quantidades
Imagine olhar para duas mesas sem contar os objetos sobre elas. Ainda assim, é possível perceber quase imediatamente qual delas tem mais frutas. Esse reconhecimento acontece de forma automática e é chamado pelos cientistas de senso aproximado de quantidade.
Os pesquisadores explicam que essa habilidade faz parte do funcionamento natural do cérebro. Ela não depende da linguagem nem do aprendizado escolar. Antes mesmo de conhecer números ou aprender a contar, o cérebro já consegue identificar diferenças entre grupos maiores e menores de objetos.
Segundo Brian Butterworth, da University College London, que não participou da pesquisa, em entrevista à New Scientist, “extrair informações numéricas do ambiente é como enxergar o mundo em cores para a maioria das pessoas”.
Em outras palavras, o cérebro já nasce preparado para perceber aproximadamente quantos elementos existem em uma cena.
Como os cientistas descobriram essa capacidade
Para investigar como essa habilidade aparece tão cedo, pesquisadores da Universidade de Trento, na Itália, acompanharam 21 recém-nascidos com idade entre zero e três dias. Os bebês usaram uma touca equipada com sensores capazes de registrar a atividade elétrica do cérebro.
Durante os momentos em que permaneciam acordados, eles ouviam uma gravação com sílabas organizadas em grupos de quatro ou de 12. Ao mesmo tempo, observavam imagens que também apresentavam quatro ou 12 pontos, permitindo comparar a reação do cérebro às diferentes combinações.
O pesquisador Marco Buiatti explica que realizar esse tipo de experimento exige muita paciência. “Eles abrem os olhos por um ou dois minutos, e só. É complicado e lento, mas muito gratificante quando conseguimos resultados”, afirmou.

Descoberta pode ajudar no futuro
Os registros mostraram que a atividade cerebral diminuía quando a quantidade de pontos correspondia ao número de sílabas ouvidas. Já quando havia diferença entre os estímulos, o cérebro voltava a responder com mais intensidade, indicando que havia percebido uma mudança.
Segundo Buiatti, “ver um novo número de pontos libera o cérebro desse efeito de adaptação”. Para o pesquisador, “É a primeira vez que mostramos um mecanismo neural para esse senso numérico inato”.
Os resultados indicam que essa percepção de quantidades faz parte do cérebro humano desde o nascimento.
Os autores acreditam que essa capacidade ofereceu vantagens importantes ao longo da evolução, como distinguir rapidamente onde havia mais alimentos ou identificar grupos maiores de possíveis predadores.
Além disso, pesquisas anteriores mostram que essa percepção no primeiro ano de vida está relacionada ao desempenho matemático na infância. Com novos estudos, a descoberta poderá contribuir para identificar precocemente crianças com maior risco de desenvolver discalculia, transtorno que dificulta compreender, lembrar e utilizar informações numéricas.






