Recentemente, um portal de notícias divulgou uma matéria sobre saúde com um especialista inventado por Inteligência Artificial (IA). Além disso, uma pesquisa do aplicativo Olá Doutor divulgada este ano indicou que 7 em cada 10 brasileiros já usaram IA para tirar dúvidas sobre sintomas ou possíveis doenças.
Este cenário não é exclusivo do nosso país. A Revista Nature revelou que quase 20% (1 em cada 5) de todas as conversas diárias feitas com assistentes virtuais envolvem a descrição de sintomas pessoais ou pedidos de ajuda médica ao redor do globo.
E o que isso tudo significa?
Ferramentas de Inteligência Artificial integram cada vez mais as nossas rotinas, ao ponto de confundirmos suas limitações e papéis na nossa vida. Muitos tratam esses ChatBots como médicos, psicólogos, especialistas e até amigos.
Flaw Bone, pesquisadora de filosofia, ética e tecnologia pela UFRJ, docente da ESPM SP e parceira da NuPixel, consultoria criativa e digital, traz uma visão multifacetada dessa questão.
A especialista, que visualiza a comunicação humana por diferentes lentes, do mercado, dos alunos, das pesquisas e de clientes, explica que a relação entre sociedade e tecnologias pode ser muito positiva se mantivermos o entendimento de que é uma relação de um ser humano e de uma máquina, não de um ser humano com outro.
A ansiedade que o sistema humano não consegue suprimir
No campo da saúde, essa linha divisória se torna ainda mais tênue. Quando sentimos um sintoma desconhecido, o medo e a ansiedade assumem o controle, gerando uma pressa que o sistema de saúde tradicional nem sempre consegue acolher no tempo que desejamos. É nesse vácuo que os chatbots se tornam a primeira opção.
“Falarmos de saúde é falar de algo fundamental, carregado da percepção de urgência diante daquilo que não temos competência técnica para validar”, analisa Flaw. Segundo a pesquisadora, o ambiente digital saturado de ruídos faz com que a IA pareça a ponte mais rápida e disponível para o conhecimento.
No entanto, o volume gigantesco de dados com o qual essas ferramentas são treinadas entrega o necessário, mas não o suficiente para um diagnóstico real. “Saber que tem informação relevante ali é importante, mas saber que pode haver informação errada é tão importante quanto”, alerta.
Flaw ainda reforça: muitas vezes, recorremos à tecnologia para não ficarmos “reféns” de profissionais que são apenas especialistas em retórica, ou seja, que apenas “falam muito”. O irônico é que a IA opera exatamente da mesma forma. “Precisamos fazer a analogia: uma IA também é uma grande especialista da retórica! O risco não é perguntar, e sim achar que um sistema de IA é a única fonte segura”, completa.
A fluidez simula afeto
Além da busca por diagnósticos rápidos, o design dessas ferramentas, com disponibilidade 24 horas por dia, respostas instantâneas e tom acolhedor, foi desenhado sob medida para gerar conforto. Essa naturalidade linguística que evita fórmulas matemáticas complexas e se aproxima da fala humana facilita o dia a dia, mas abre margem para um envolvimento emocional perigoso.
Flaw aponta que a fronteira saudável entre humano e máquina se mantém clara quando a linguagem natural é vista apenas como um facilitador operacional. “Sentir a conexão não é o problema, é negar que somos seres emocionais e que ela existe”. reforça.
Para ela, o perigo real não está no sentimento em si, mas na falta de pensamento crítico sobre ele: “Sentir não é perigoso; não pensar sobre o que se sente é que é.” Ao aceitar a linguagem acolhedora sem questionamento, o usuário corre o risco de reconhecer a máquina como um semelhante, esquecendo-se de que o ser humano vai muito além de um fluxo operacional programado para acertar. A empatia está em nós, não na máquina, que replica isso de forma artificial.
Responsabilidade não se terceiriza
À medida que essas ferramentas avançam sobre os espaços de médicos, psicólogos e conselheiros íntimos, os desafios éticos e sociais se multiplicam. Questões como a segurança dos dados dos pacientes e a falta de transparência sobre como as respostas são geradas entram em pauta. Contudo, para a pesquisadora, o ponto mais sensível dessa transição é a diluição da responsabilidade.
“A máquina pode mostrar como ir a um lugar ou por que se chega lá, mas quem decide o destino é sempre um ser humano”, defende. Flaw lembra que decisões humanas envolvem julgamento e moral, enquanto a Inteligência Artificial entrega apenas ponderações estatísticas. A tecnologia pode ilustrar cenários e justificar pontos de vista, mas nunca poderá ser responsabilizada pelas consequências de suas respostas.
O retorno ao essencial
Se o avanço da inteligência artificial parece nos empurrar para um futuro altamente tecnológico e difuso, o efeito colateral mais surpreendente pode ser o oposto. Para Flaw, essa transformação está nos forçando a olhar de volta para as perguntas humanas mais básicas, tornando a filosofia uma espécie de “caixa de ferramentas” indispensável para os novos tempos.
O cuidado daqui para a frente exige vigilância para não agirmos apenas nos sintomas, ignorando as causas do nosso próprio distanciamento e da nossa dependência tecnológica. O horizonte pode ser incerto, mas a escolha de como caminhar por ele ainda nos pertence. Como resume a especialista: “Podemos não saber direito para onde estamos indo, mas é preciso, pelo menos, decidir para onde queremos ir e nos empenhar nesse caminho.”






