O que causa o “bafo de Mounjaro”, uma das consequências mais comuns de canetas injetáveis

O medicamento possui diferentes efeitos colaterais, mas um em específico pode causar incômodo nos pacientes

O Mounjaro foi aprovado pela Anvisa em 2023 (Foto: Divulgação/Eli Lilly)

O Mounjaro foi aprovado pela Anvisa em 2023 (Foto: Divulgação/Eli Lilly)

Em 2026, os esforços para emagrecer já fazem parte da rotina de quase 50% dos brasileiros. Segundo a Euromonitor, a taxa de adesão a remédios como Mounjaro ou Ozempic por aqui é de 5,5%, um índice significativamente maior do que o patamar global de 3,7%. 

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O medicamento possui diferentes efeitos colaterais, mas um em específico pode causar incômodo tanto nos pacientes quanto no seu ciclo de convívio: o chamado “bafo de Ozempic ou Mounjaro”. Pacientes que utilizam estes tipos de injetáveis relataram uma alteração acentuada no hálito e arrotos com odor forte, frequentemente comparados a enxofre ou ovo estragado.

Longe de ser uma percepção subjetiva ou apenas falta de higiene oral, o fenômeno tem explicações científicas profundas ligadas diretamente ao mecanismo de ação da medicação no sistema digestivo.

O que causa este hálito de enxofre?

O Mounjaro e outras canetas similares, como Ozempic e Wegovy, atuam como um duplo agonista dos receptores de GLP-1 e GIP, hormônios que mimetizam a saciedade no organismo. Uma de suas principais funções é o retardo do esvaziamento gástrico. Na prática, isso significa que a comida permanece no estômago por um período significativamente maior do que o habitual.

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Quando o bolo alimentar fica estacionado no estômago, ele entra em um processo de fermentação e decomposição bacteriana lenta. Essa digestão tardia libera gases ricos em compostos de enxofre. Como o esfíncter esofágico também pode relaxar sob o efeito da medicação, esses gases sobem em forma de arrotos e alteram diretamente o hálito do paciente.

Além da fermentação, médicos apontam outros três fatores cruciais:

  • Xerostomia (Boca Seca): O uso crônico dessas medicações reduz a produção de saliva. Sem o “detergente natural” da boca, restos de alimentos e bactérias proliferam-se na parte posterior da língua, formando a saburra lingual.
  • Cetose Acelerada: Com a drástica redução da ingestão de calorias e carboidratos, o corpo passa a queimar gordura para gerar energia. Esse processo libera corpos cetônicos que são expelidos pelos pulmões, gerando um hálito que remete a frutas passadas ou acetona.
  • Refluxo Gastroesofágico: A pressão dos gases acumulados no estômago empurra o ácido gástrico para cima, provocando azia e um gosto amargo contínuo na cavidade oral.

Impacto na adesão ao tratamento

Embora o mau hálito e os distúrbios digestivos leves (como náuseas e constipação) não configurem riscos graves à saúde na maioria dos casos, endocrinologistas alertam que o desconforto social pode levar à descontinuação do tratamento por conta própria.

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A orientação clínica envolve o manejo dos sintomas: fracionar as refeições em pequenas porções ao longo do dia, reduzir drasticamente o consumo de gorduras (que lentificam ainda mais a digestão), hidratação intensa para estimular as glândulas salivares e o uso rigoroso de raspadores linguais.

O “bafo de Mounjaro” reforça um consenso médico antigo, mas frequentemente esquecido em tempos de medicalização do emagrecimento: o uso dessas substâncias exige acompanhamento multiprofissional contínuo, integrando endocrinologistas, nutricionistas e, agora, cirurgiões-dentistas.