Por que helicópteros caem? Acidente que matou o cantor Rick expõe riscos da aviação geral 

Acidentes aeronáuticos normalmente resultam da combinação de diferentes circunstâncias, que podem envolver meteorologia, condições do terreno, obstáculos e outros; entenda

O piloto foi o primeiro a ser retirado do local do acidente, por volta das 10h30, segundo os bombeiros.

O piloto foi o primeiro a ser retirado do local do acidente, por volta das 10h30, segundo os bombeiros. Foto: Divulgação/Governo do Estado de São Paulo

A confirmação da morte do cantor Rick Sollo, integrante da dupla Rick & Renner, em um acidente de helicóptero na Serra Catarinense reacendeu dúvidas sobre os riscos desse tipo de operação no Brasil. 

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O artista estava a bordo de um Bell 430 que saiu de Porto Belo, no litoral de Santa Catarina, com destino a São Joaquim. A aeronave desapareceu durante o trajeto, em 21 de setembro, e foi localizada no dia seguinte na região de Urubici. Os cinco ocupantes morreram.

As causas da queda ainda não foram determinadas. O acidente é investigado pelo Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (CENIPA), e informações sobre as condições meteorológicas, trajetória, operação da aeronave e atuação da tripulação ainda precisam ser analisadas antes de qualquer conclusão.

Mas por que acidentes envolvendo helicópteros e outras aeronaves da chamada aviação geral continuam acontecendo?

Acidentes aeronáuticos normalmente resultam da combinação de diferentes circunstâncias, que podem envolver meteorologia, condições do terreno, obstáculos, características da operação, manutenção, decisões tomadas durante o voo e fatores humanos. Por isso, uma investigação técnica não deve partir de uma causa previamente estabelecida.

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O que é a aviação geral?

Para entender a diferença entre um voo de helicóptero particular e uma viagem em um avião comercial, é preciso primeiro compreender o conceito de aviação geral.

O termo engloba uma grande variedade de operações que não fazem parte do transporte aéreo regular de passageiros em grandes companhias. Estão nesse grupo aeronaves particulares, voos executivos, operações de instrução, táxi aéreo e diferentes atividades especializadas.

Essas operações podem ocorrer em contextos muito diferentes daqueles encontrados na aviação comercial. Um avião de linha aérea, por exemplo, normalmente opera dentro de uma estrutura altamente padronizada, com rotas, procedimentos, infraestrutura aeroportuária e equipes submetidas a uma série de requisitos específicos.

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Já um helicóptero pode ser utilizado para deslocamentos mais curtos, pousos em locais diversos e operações próximas ao terreno. Isso oferece flexibilidade, mas também faz com que determinadas operações estejam mais expostas a características do relevo, obstáculos e mudanças meteorológicas.

O próprio Painel SIPAER, do CENIPA, reúne dados de ocorrências da aviação civil brasileira, que são superiores ao da aviação comercial. De acordo com as estatísticas, a aviação geral (particular/privada) registra cerca de 60 vezes mais acidentes no Brasil do que a aviação comercial regula 

Por que helicópteros podem estar mais expostos ao terreno e aos obstáculos?

Uma das características do helicóptero é a capacidade de operar em altitudes relativamente baixas e de utilizar áreas que não funcionam como grandes aeroportos. Isso é fundamental para muitas atividades, mas também significa que a aeronave pode estar mais próxima de árvores, montanhas, torres, cabos de energia e outras estruturas.

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Em determinadas situações, esses obstáculos podem ser difíceis de identificar visualmente. Um relatório de investigação disponibilizado pela própria estrutura de segurança aeronáutica brasileira, por exemplo, descreve um acidente em que um helicóptero, durante um voo controlado e a baixa altura, atingiu um fio de uma rede elétrica. A investigação apontou que o contraste entre o cabo e o ambiente dificultava sua visualização pelo piloto.

Isso ajuda a explicar por que o voo próximo ao terreno exige atenção especial. Um obstáculo que parece pequeno ou pouco perceptível para quem está no solo pode representar um risco significativo para uma aeronave em movimento.

No caso de Rick, entretanto, não há, até o momento, informação oficial que permita afirmar que uma colisão com obstáculo tenha provocado o acidente.

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Metereologia desempenha grande papel em voos gerais

Na data do acidente com Rick, Santa Catarina enfrentava condições meteorológicas adversas. O estado estava sob alertas de chuva intensa, ventos fortes e possibilidade de granizo, enquanto a região serrana apresentava mudanças rápidas de visibilidade e condições de voo. 

Reportagens que ouviram pilotos familiarizados com a Serra Catarinense também destacaram a possibilidade de formação rápida de nuvens e redução da visibilidade na região. Isso não significa, porém, que o mau tempo tenha sido a causa da queda. Essa conclusão depende da investigação do CENIPA.

A meteorologia interfere diretamente na capacidade de uma tripulação manter referências visuais e avaliar o terreno. Em um voo realizado sob regras visuais, conhecidas pela sigla VFR, o piloto precisa conseguir enxergar a superfície de forma suficiente para controlar a aeronave com segurança. A regulamentação da Agência Nacional de Aviação Civil (ANAC) estabelece essa exigência para helicópteros que operam nessas condições.

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Quando chuva, neblina, nuvens ou outras condições reduzem drasticamente essa referência, a situação pode se tornar mais complexa. Em regiões montanhosas, como a Serra Catarinense, a combinação entre relevo e baixa visibilidade exige atenção ainda maior.

O que é a desorientação espacial?

A perda de referências visuais também pode levar a outro problema conhecido na aviação: a desorientação espacial.

O ser humano utiliza principalmente a visão para entender sua posição e seus movimentos no espaço. Quando essa referência desaparece ou fica prejudicada, especialmente em condições de baixa visibilidade, o cérebro pode interpretar de maneira equivocada movimentos da aeronave.

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Isso pode fazer com que o piloto tenha dificuldade para perceber corretamente se está subindo, descendo, inclinando ou mudando de direção. Em situações de visibilidade muito reduzida, a utilização dos instrumentos de voo e o treinamento específico passam a ter papel fundamental.

Por isso, a entrada involuntária em condições de voo sem referências visuais é considerada uma situação de risco. A própria formação de pilotos de helicóptero inclui treinamento relacionado ao gerenciamento de ameaças e erros e à recuperação de atitudes anormais utilizando instrumentos.

A pressão para cumprir uma agenda pode aumentar o risco?

Outro conceito importante na segurança aérea é o chamado press-on-itis, expressão usada informalmente para descrever a tendência de continuar uma viagem apesar da existência de fatores que recomendariam cautela, como mudanças meteorológicas ou dificuldades operacionais.

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No caso de profissionais que precisam se deslocar frequentemente, como artistas, empresários e equipes de produção, a logística pode envolver compromissos em cidades diferentes e horários apertados. Isso não significa que artistas estejam necessariamente mais sujeitos a acidentes, nem que uma agenda tenha relação com determinado acidente.

Relatórios de investigações aeronáuticas já identificaram situações em que condições meteorológicas desfavoráveis, pressão operacional, planejamento inadequado e decisões tomadas durante o voo apareceram associados a ocorrências. Em um relatório disponibilizado pela ANAC, por exemplo, investigadores apontaram que a falta de planejamento e a pressão relacionada à realização de voos em circunstâncias adversas poderiam ter contribuído para decisões inadequadas.

É justamente por isso que a segurança aérea trabalha com gerenciamento de riscos: a ideia é identificar antecipadamente os fatores que podem transformar uma situação operacionalmente possível em uma situação perigosa.

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Helicóptero é menos seguro que avião comercial?

Um helicóptero particular e um avião de uma companhia aérea são submetidos a contextos operacionais diferentes. Como já mencionado, o avião comercial normalmente opera em uma estrutura que envolve procedimentos padronizados, infraestrutura aeroportuária específica, controle de tráfego, manutenção programada e, em muitos voos, uma tripulação composta por dois pilotos.

Isso não significa que um helicóptero seja, por definição, uma aeronave insegura. A segurança depende de muitos fatores, como o tipo de operação, das condições meteorológicas, da aeronave, da manutenção, da formação e experiência da tripulação, do planejamento e mais.

Também é incorreto concluir que a simples presença de determinados equipamentos determina se uma aeronave é segura ou não. Os recursos disponíveis variam conforme o modelo, a operação e os requisitos de certificação.

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O Bell 430 que transportava Rick, por exemplo, era um helicóptero bimotor fabricado em 2001. Segundo consulta feita ao sistema da Anac antes da localização da aeronave, sua situação cadastral era considerada normal e o Certificado de Aeronavegabilidade Padrão estava válido até agosto de 2027.

Ainda assim, estar com a documentação e a aeronavegabilidade regulares não significa que um acidente não possa acontecer. Uma aeronave pode estar apta a voar e, durante uma operação específica, enfrentar uma combinação inesperada de fatores.

Caso relembra acidente de Marília Mendonça

A morte da cantora Marília Mendonça, em novembro de 2021, também envolveu um avião de pequeno porte, mas as circunstâncias não são as mesmas do acidente com Rick.

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Apesar das agendas apertadas, acidentes envolvendo artistas não necessariamente têm uma causa comum. No caso de Marília, o acidente ocorreu durante a aproximação para o pouso em Caratinga, Minas Gerais. A aeronave atingiu um cabo de uma linha de transmissão antes de cair. O episódio envolveu, portanto, uma interação entre a trajetória da aeronave e um obstáculo existente no terreno.

Já no caso de Rick, as circunstâncias ainda estão sendo investigadas. A aeronave caiu em uma região de serra e as condições meteorológicas eram adversas, mas ainda não é possível estabelecer qual foi a sequência de acontecimentos que levou à queda.

Por que a investigação demora?

Investigações de acidentes aéreos não têm como objetivo simplesmente apontar um culpado. O trabalho do CENIPA é voltado principalmente à prevenção: entender o que aconteceu, identificar fatores que contribuíram para a ocorrência e produzir recomendações capazes de evitar acidentes semelhantes.

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Para isso, os investigadores analisam os destroços, a trajetória da aeronave, condições meteorológicas, registros de manutenção, características do voo, informações da tripulação e outros elementos disponíveis.

No acidente com Rick, as autoridades localizaram os destroços na Serra Catarinense em 22 de setembro. O helicóptero levava cinco pessoas e não houve sobreviventes. A partir da localização da aer