A direção do portal Metrópoles encaminhava reportagens a Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master, antes da publicação e aceitava alterações sugeridas por ele. As conversas extraídas pela Polícia Federal (PF) do celular do ex-banqueiro também indicam que ele foi consultado sobre pautas de interesse da instituição financeira e solicitou mudanças na cobertura de pessoas envolvidas na análise de operações do banco.
Segundo levantamento publicado pelo UOL, ao menos 14 textos foram enviados previamente a Vorcaro. Em 11 deles, houve alterações após pedidos do empresário. As mensagens também registram duas reportagens publicadas a pedido dele.
A interlocução direta entre Vorcaro e Lilian Tahan, CEO do grupo Metrópoles, começou em 2024, mesmo ano em que o Banco Master fechou um contrato de publicidade de R$ 20 milhões com o portal. Os registros mostram que, nos meses seguintes, a relação passou a incluir a leitura antecipada de reportagens, sugestões de pauta e interferências no conteúdo editorial.
Questionada sobre o envio de textos ao empresário, Tahan afirmou que consultar fontes para verificar se uma reportagem corresponde ao contexto apresentado é uma prática que adota com personalidades dos setores empresarial, político e judiciário.
A executiva também negou que o contrato publicitário tivesse relação com a cobertura jornalística de assuntos de interesse do banco. Como argumento, citou reportagens do próprio Metrópoles que expuseram a situação de empresas ligadas a Vorcaro, incluindo Banco Master, Ambipar, Fictor e Oncoclínicas.
Como começou a relação entre Vorcaro e o Metrópoles
A aproximação ocorreu em maio de 2024, quando Guilherme Barros, então consultor de Vorcaro, organizou um encontro entre o empresário e Lilian Tahan.
No dia seguinte à reunião, Barros comentou que Tahan havia gostado de Vorcaro e sugeriu que ela própria fizesse a ponte de contato com Luiz Estevão, proprietário do Metrópoles e ex-senador. Estevão foi condenado a 31 anos de prisão por desvio de recursos públicos e passou ao regime aberto em 2021, após cumprir parte da pena.
Um mês depois do encontro, o Banco Master pagou R$ 1 milhão ao portal. Em julho, acertou outros R$ 900 mil para financiar projetos de educação financeira de duas empresas do grupo: a seguradora Kovr e o banco digital Will.
Em novembro de 2024, Tahan apresentou uma nova proposta comercial a Vorcaro. O acordo foi fechado em R$ 20 milhões. Em uma conversa sobre o preço, a executiva comentou que o Metrópoles estava caro. O banqueiro respondeu que o portal era a coisa mais importante da vida deles.
Dois dias depois, Vorcaro informou que havia aprovado a proposta. Uma funcionária perguntou se o valor seria pago integralmente pelo CNPJ do Banco Master ou dividido entre o banco e as empresas Kovr e Will. Segundo as mensagens, o pagamento foi realizado em 2025, em parcelas de R$ 5 milhões.
Reportagens eram alteradas após pedidos do banqueiro
Os registros mostram episódios em que Vorcaro questionou informações publicadas ou sugeriu mudanças antes de as matérias irem ao ar.
Em 2 de abril de 2025, ele reclamou de uma notícia sobre uma suposta proposta de compra de ativos do Banco Master por R$ 1. O empresário afirmou que a oferta nunca havia existido. Tahan respondeu que retiraria a informação.
Naquele período, o Master já enfrentava dificuldades financeiras. Poucos dias antes, o Banco de Brasília (BRB), instituição estatal controlada pelo governo do Distrito Federal, havia anunciado a compra de 58% do capital do Master. A operação, apresentada como uma tentativa de socorrer o banco, foi alvo de críticas e ainda dependia da aprovação do Banco Central (BC).
Em 9 de abril, Tahan avisou Vorcaro que havia recebido um documento relacionado ao assunto e se ofereceu para encaminhá-lo. A executiva também combinou o envio de uma cópia física.
No dia seguinte, ela sugeriu uma reportagem comparando os balanços do Master e do BRB e perguntou se a pauta ajudaria ou prejudicaria o banco. Vorcaro considerou que poderia ser positiva, desde que tivesse a oportunidade de conferir os dados antes da publicação. Tahan concordou, e o texto foi publicado naquele mesmo dia após ser submetido ao empresário.
Em maio, outra reportagem enviada previamente a Vorcaro tratava da venda de ativos do Master ao BTG Pactual. Na ocasião, ele pediu que a Hapvida fosse retirada do texto, solicitação que foi aceita.
Vorcaro também sugeriu mudanças em textos sobre diretor do Banco Central
As conversas mostram ainda a participação do ex-banqueiro na edição de reportagens sobre Renato Gomes, diretor do Banco Central que analisava a aquisição do Master pelo BRB.
Gomes se posicionou contra a operação, que posteriormente não avançou e foi seguida pela liquidação extrajudicial do Banco Master.
Em agosto de 2025, Tahan enviou a Vorcaro uma entrevista com Roberto Campos Neto, ex-presidente do Banco Central, que mencionava Gomes. O empresário sugeriu concentrar a reportagem em Campos Neto e reservar as informações sobre o diretor para uma publicação específica.
A orientação foi seguida. Dias depois, a executiva encaminhou um perfil de Gomes, intitulado “Técnico ou político? Quem é Renato Gomes”.
Vorcaro pediu a retirada de um trecho sobre a falência do banco e sugeriu incluir a informação de que haveria uma divisão interna no Banco Central e de que Gomes seria contrário à operação entre Master e BRB. Ele também propôs mencionar especulações de que o diretor poderia trabalhar em um dos grandes bancos após deixar o cargo.
As sugestões foram incorporadas ao texto. Em resposta, Tahan avisou que a reportagem seria publicada. No dia seguinte, ela encaminhou outra matéria, desta vez sobre um projeto que permitiria ao Congresso demitir diretores do Banco Central. Vorcaro pediu a retirada da última frase, e o conteúdo foi ajustado.
Ao ser questionada sobre a origem da pauta relacionada a Gomes, Tahan afirmou que o diretor se tornou um personagem relevante por ter se posicionado contra a aquisição do Master pelo BRB. Segundo ela, o tema era de interesse do portal por envolver o banco estatal de Brasília.
Pedido para reduzir cobertura de crítico da operação
Em agosto de 2025, Vorcaro também procurou Tahan para pedir uma redução temporária na cobertura de Ricardo Cappelli, pré-candidato da oposição ao governo do Distrito Federal que criticava a compra do Master pelo BRB.
Na mensagem, o empresário perguntou se a CEO conseguiria diminuir a atenção dada a Cappelli naquela semana, acrescentando que a cobertura poderia ser retomada depois. Tahan respondeu que resolveria a questão.
Sobre o episódio, a executiva afirmou que Luiz Estevão sempre foi um crítico da aquisição do Master pelo BRB. Segundo ela, o proprietário do portal havia fornecido a Cappelli análises sobre problemas nos balanços do banco estatal que, em sua avaliação, demonstravam a inviabilidade da operação.
Última troca de mensagens ocorreu no dia da prisão
O levantamento do UOL identificou uma última interação entre Tahan e Vorcaro em 17 de novembro de 2025, data em que o ex-banqueiro foi preso. Na ocasião, a executiva enviou textos sobre a possível venda do Banco Master à Fictor antes da publicação. Depois de realizar as alterações solicitadas pelo empresário, Tahan informou que a reportagem havia sido publicada.
O conjunto das mensagens mostra que a relação entre o ex-banqueiro e a direção do Metrópoles não se limitava à contratação de publicidade. Os registros indicam que Vorcaro teve acesso antecipado a conteúdos jornalísticos e conseguiu influenciar a redação de reportagens sobre o próprio banco, a operação com o BRB e personagens envolvidos no caso.
Apesar dos episódios documentados, Lilian Tahan sustenta que a consulta a fontes faz parte de sua prática profissional e nega que o contrato publicitário tenha condicionado a cobertura editorial do portal.




