O Supremo Tribunal Federal (STF) analisa nesta terça-feira (15/9) se deve ser aberta uma investigação contra o ministro Alexandre de Moraes por causa da relação dele com o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, dono do antigo Banco Master.
A discussão tem como base um relatório da Polícia Federal elaborado a partir de dados encontrados no celular de Vorcaro.
O documento reúne mensagens, registros de encontros e informações sobre contratos firmados entre empresas ligadas ao ex-banqueiro e o escritório de advocacia da esposa de Moraes, Viviane Barci de Moraes.
A sessão ocorre em meio a uma crise dentro do próprio STF, depois que o ministro André Mendonça retirou o sigilo de parte dos documentos relacionados ao caso Master.
O presidente da Corte, Edson Fachin, assumiu a relatoria do caso e determinou a divulgação de documentos que serão considerados pelos ministros.
STF decide se houve crime
O plenário não vai decidir nesta terça-feira se Moraes cometeu algum crime. A discussão é se existem elementos suficientes para justificar a abertura de uma investigação formal sobre a relação do ministro com Vorcaro.
O caso chegou ao STF após a Polícia Federal identificar, no celular do ex-banqueiro, mensagens enviadas a Moraes.
Segundo o relatório, foram recuperadas 52 mensagens escritas por Vorcaro entre outubro e novembro de 2025.
Como parte das conversas foi enviada pelo recurso de visualização única do WhatsApp, a PF não conseguiu recuperar o conteúdo das respostas atribuídas a Moraes. Por isso, o relatório não permite reconstruir integralmente todos os diálogos.
Como Moraes e Vorcaro se conheceram?
Segundo informações reunidas pela investigação, o ex-ministro das Comunicações, Fábio Faria, apresentou Vorcaro a Moraes no fim de 2023.
A partir daquele período, os dois passaram a manter contato. O relatório da PF aponta encontros presenciais e mensagens trocadas entre o ex-banqueiro e o ministro.
Entre os encontros mencionados estão reuniões na casa de Moraes, em São Paulo, em dezembro de 2023, e um almoço organizado por Vorcaro em Campos do Jordão, no interior paulista.
As informações sobre os encontros ganharam importância na investigação porque ocorreram antes da contratação do escritório de Viviane Barci de Moraes pelo Banco Master.
O que dizem as mensagens de Vorcaro?
Uma das principais questões analisadas pela PF são as mensagens em que Vorcaro procurava Moraes para falar sobre as investigações contra o Banco Master.
Em novembro de 2025, pouco antes de ser preso, o banqueiro perguntou ao ministro se deveria deixar o Brasil e também questionou sobre possíveis medidas que poderiam ser tomadas contra ele.
Em outra conversa, Vorcaro perguntou se seria possível adiar medidas cautelares que seriam cumpridas pela Polícia Federal. Ele também buscou informações sobre o andamento das investigações.
A PF identificou mensagens enviadas até 17 de novembro de 2025, quando Vorcaro foi preso ao tentar embarcar em um jato particular.
O relatório também aponta que Vorcaro utilizava o contato com Moraes para tentar obter informações sobre investigações que envolviam o Banco Master.
Qual é a relação do escritório da esposa de Moraes com Vorcaro?
Outro ponto central do caso são os contratos entre o Banco Master e o escritório Barci de Moraes, que pertence à esposa do ministro.
O primeiro contrato foi assinado em janeiro de 2024 e previa serviços jurídicos para o banco, incluindo atuação em processos judiciais e consultoria em procedimentos perante órgãos como Polícia Federal, Banco Central, Receita Federal e Cade.
O acordo previa 36 pagamentos mensais de R$ 3 milhões. Considerados os impostos previstos no documento, o valor total poderia chegar a R$ 131,2 milhões.
A Polícia Federal também identificou, por meio dos metadados do arquivo, que um perfil identificado como “Ministro Alexandre de Moraes” editou uma versão do documento antes da assinatura.
O escritório confirmou que Moraes teve acesso ao arquivo. Segundo a justificativa apresentada pela banca, o setor de compliance pediu ao ministro informações sobre a existência de eventual impedimento legal para a contratação, já que ele é marido de uma das sócias.
A defesa afirma que não havia impedimento porque Moraes não havia julgado causas envolvendo o Banco Master.
Segundo contrato
Em maio de 2025, foi elaborado um segundo contrato, no valor de R$ 50 milhões, envolvendo o escritório Barci de Moraes e a Viking Participações, empresa ligada a Vorcaro.
O documento previa consultoria estratégica e atuação jurídica. Segundo informações divulgadas pelo escritório, porém, esse segundo contrato não chegou a ser assinado.
O caso também envolve o uso de aeronaves ligadas a empresas de Vorcaro pela família de Moraes, assunto que aparece nos documentos analisados pela Polícia Federal.
Como o caso chegou ao STF
A Polícia Federal produziu um relatório sobre o conteúdo encontrado no celular de Vorcaro e encaminhou o material ao Supremo.
O documento passou a ser analisado por André Mendonça, relator de processos relacionados ao caso Master. Depois da retirada de parte do sigilo, as informações sobre as mensagens e a relação entre Vorcaro e Moraes vieram a público.
O presidente do STF, Edson Fachin, posteriormente assumiu a condução do caso e determinou a retirada de sigilo de documentos considerados relevantes para a análise do plenário.
A Procuradoria-Geral da República também se manifestou pela divulgação de documentos relacionados aos pagamentos de Vorcaro.
Pronunciamento de Alexandre de Moraes
Moraes nega irregularidades e questiona a forma como o material foi produzido e divulgado. O ministro afirma que André Mendonça extrapolou suas atribuições ao conduzir determinadas medidas relacionadas ao caso e ao tornar públicos documentos da investigação.
O escritório Barci de Moraes também sustenta que a contratação pelo Banco Master foi regular, que os serviços jurídicos foram prestados e que não havia impedimento legal para o acordo.
A defesa de Vorcaro, por sua vez, afirmou que não reconhece como definitivas as propostas de colaboração premiada que vieram a público e que os documentos foram produzidos durante negociações que não resultaram em acordo.
O que está em discussão agora?
A questão central para o STF é saber se os elementos reunidos pela Polícia Federal justificam a abertura de uma investigação formal contra Alexandre de Moraes.
As mensagens de Vorcaro, os encontros entre os dois e os contratos do Banco Master com o escritório da esposa do ministro estão entre os principais pontos analisados pelos ministros.
A sessão desta terça-feira ocorre, portanto, para decidir se a relação entre Moraes e Vorcaro deve ser formalmente investigada, e não para estabelecer, neste momento, se o ministro é culpado ou inocente de qualquer crime.
