Gratuidade para policiais expõe abismo social no transporte público

Estudo da UnB indica que tarifa compromete renda das famílias vulneráveis

Gratuidade para policiais expõe abismo social no transporte público

Gratuidade para policiais expõe abismo social no transporte público | Divulgação/PMI

O avanço do PL 1923/23, que institui passe livre para policiais civis e militares, coloca em rota de colisão as corporações de segurança e os defensores de uma reforma estrutural no transporte público.

A proposta aprovada na Comissão de Viação e Transportes garante o benefício em ônibus, metrôs e trens. O relator, deputado Zé Trovão (PL-SC), sustenta que a medida melhora a qualidade do serviço de segurança pública no país.

O custo da exclusão no orçamento

Enquanto a gratuidade foca em uma categoria profissional, o estudo “Tarifa Zero” da Universidade de Brasília (UnB) 2026 revela que o transporte é o item que mais pune o orçamento das famílias brasileiras de menor renda, chegam a comprometer até 19% do orçamento mensal apenas com deslocamento.

Segundo o levantamento, o gasto com passagens compromete severamente a subsistência de quem vive nas periferias. Em muitos casos, o valor supera gastos com saúde e educação básica combinados.

Para o ObservaDF, vinculado à UnB, a tarifa atual funciona como uma barreira física. Ela impede que trabalhadores acessem centros de emprego, consolidando uma “segregação socioespacial” nas metrópoles.

Gratuidade seletiva vs. universalidade

A crítica central dos especialistas reside na lógica da gratuidade seletiva. Enquanto policiais ganham o benefício, populações vulneráveis seguem sem acesso a políticas de tarifa zero ou subsídios diretos.

O estudo da UnB destaca que a deficiência do transporte em regiões mal conectadas aprofunda a desigualdade de oportunidades. O foco em grupos de status pode desviar recursos de uma reestruturação necessária.

Há um alerta sobre o impacto na “tarifa técnica”. Sem fontes de financiamento externas, o custo do passe livre policial pode ser repassado indiretamente aos demais usuários através de aumentos na passagem.

Mobilidade como barreira de direitos

A pesquisa aponta que famílias em situação de vulnerabilidade enfrentam longas jornadas e baixa qualidade nas paradas. Para esses grupos, a mobilidade é uma “frágil articulação” entre moradia e sobrevivência.

A lógica de ampliar isenções sem um ajuste global de financiamento pressiona prefeituras. O risco é a redução de investimentos em novas frotas para custear os benefícios concedidos a agentes estatais.

O debate no Congresso agora aguarda novas análises orçamentárias. O impasse permanece, priorizar categorias específicas ou investir na tarifa zero universal para corrigir a desigualdade estrutural do sistema.