Caverna que pode ter sido onde Homero criou a Odisseia vira atração turística; saiba como visitar gruta na Turquia

Relato registrado há quase 1.800 anos liga gruta de Bornova ao poeta; moedas antigas e idioma reforçam relação com Esmirna

Caverna perto de Izmir é associada a Homero desde a Antiguidade e voltou aos holofotes com o sucesso da Odisseia de Christopher Nolan (Foto: Léon de Laborde / Wikimedia Commons)

Caverna perto de Izmir é associada a Homero desde a Antiguidade e voltou aos holofotes com o sucesso da Odisseia de Christopher Nolan (Foto: Léon de Laborde / Wikimedia Commons)

Se a tradição estiver certa, Homero não precisou imaginar o mar de muito longe. Há quase três mil anos, o poeta teria subido por uma encosta de oliveiras, entrado em uma pequena gruta e, diante da Jônia, dado forma a uma das histórias mais influentes da literatura: a Odisseia.

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Não sabemos se a cena aconteceu assim. Ainda assim, a gruta de Bornova, nos arredores de Izmir, na Turquia, carrega há séculos o título de Vale de Homero. Segundo a tradição local, foi entre aquelas pedras que o poeta teria composto parte de seus versos.

Caverna virou atração

Visitar a chamada Caverna de Homero exige avançar por uma área rochosa cercada por colinas e oliveiras, em uma paisagem típica do Mediterrâneo. Nas paredes, inscrições em grego deixadas por visitantes acrescentam mistério ao caminho, embora a idade dessas marcas ainda não esteja definida.

Bornova agora pretende aproveitar essa ligação com o poeta para transformar a área em atração cultural e turística. A proposta é valorizar não apenas a gruta, mas também a paisagem associada há séculos às histórias sobre Homero e à origem de seus épicos.

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O interesse ganhou novo impulso com A Odisseia, de Christopher Nolan, lançada em julho de 2026. Com a obra novamente no centro da cultura popular, o local oferece ao visitante uma experiência incomum: caminhar por uma paisagem ligada, há quase dois milênios, à memória dos poemas homéricos.

Provas da ligação

A ligação entre poeta e caverna aparece em registro do século II. Na época, o geógrafo grego Pausânias descreveu Esmirna e afirmou que, junto às nascentes do rio Meles, havia uma gruta onde, segundo os moradores, Homero havia composto seus poemas.

Além desse relato, há vestígios materiais que reforçam a antiga associação de Homero com a região. Entre eles estão moedas cunhadas em Esmirna entre os séculos II e I a.C., preservadas pelo British Museum e marcadas por representações do poeta.

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Pouco antes desse período, também surgiu o relevo conhecido como Apoteose de Homero, produzido entre 225 e 205 a.C. Nele, Homero aparece cercado por figuras divinas em uma composição cuja paisagem é interpretada pelo pesquisador Altan Altin como semelhante à gruta de Bornova.

Esses elementos mostram que Homero já era associado à região na Antiguidade. Porém, eles não constituem prova concreta de que o poeta tenha composto seus versos dentro da caverna.

A própria biografia de Homero é cercada de incertezas. Ele costuma ser situado por volta do século VIII a.C., mas diferentes cidades do mundo egeu reivindicaram sua origem. Quios, hoje parte da Grécia, e Esmirna estão entre as candidatas mais conhecidas.

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Homero escreveu mesmo?

Existe ainda uma questão maior: dizer que Homero “escreveu” a Odisseia esbarra em um problema antigo. Estudos sobre a poesia homérica indicam que os épicos nasceram de uma tradição oral, transmitida, cantada e recriada por poetas antes de ganhar forma textual.

Essa característica foi estudada em profundidade pelo Center for Hellenic Studies, de Harvard, a partir de pesquisas sobre a técnica oral dos poemas épicos.

A tradição acadêmica mostra que o idioma homérico mistura elementos jônicos e eólicos e foi moldado especialmente para a poesia. A predominância jônica é compatível com a Jônia, região histórica situada na costa da atual Turquia, mas funciona como indicação, não como prova da origem de Homero.

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Mesmo que Homero tenha vivido em Esmirna ou Bornova, a Odisseia pode não ter surgido como a obra de um escritor moderno diante de um manuscrito. O poeta pode ter composto, cantado e reelaborado versos herdados de uma tradição muito mais antiga.