Há épocas em que São José da Barra não precisa de um museu histórico para relembrar suas origens. Basta o nível do Lago de Furnas baixar, a água se afasta, e túmulos, gavetas do antigo cemitério e marcas de ruas surradas reaparecem no lugar onde existiu uma cidade inteira.
A antiga Barra Velha ficava na confluência dos rios Grande e Sapucaí. No início dos anos 1960, a formação do reservatório da Usina Hidrelétrica de Furnas cobriu toda a área urbana e obrigou cerca de 3 mil moradores a deixar suas casas.
O episódio não finda quando as águas sobem de nível. São José da Barra nasceu da transferência e, desde então, convive com uma contradição: depende da hidrelétrica que provocou sua reconstrução, mas procura no lago uma alternativa para o futuro.
Uma cidade transferida
Para receber as famílias, Furnas construiu outra cidade em uma área inicialmente chamada de Água Limpa. Mais tarde, o lugar ganhou o nome de Nova Barra, usado até hoje por moradores. O município conquistou emancipação política apenas em 1995.
A mudança deixou feridas que os números não registram. Em depoimento, o ex-prefeito de Areado Osório André Faria Vieira contou que muitos moradores resistiram à remoção. Segundo ele, a Aeronáutica chegou a retirar pessoas de helicóptero porque elas não queriam abandonar as casas.
Nos primeiros anos, a nova cidade enfrentou ruas sem asfalto, falta de saneamento e estrutura precária. Com o tempo, reorganizou os serviços e passou a reunir entre 7 mil e 8 mil habitantes.
A riqueza da usina
Os indicadores econômicos cresceram junto com a presença de Furnas. São José da Barra tem PIB per capita de R$ 116.931,19, ocupa a 19ª posição em Minas Gerais e aparece em 182º lugar no país. A renda média dos trabalhadores formais chega a 3,9 salários mínimos.
O retrato social também apresenta resultados positivos. O município registra IDH de 0,739 e escolarização de 100% entre crianças e adolescentes de 6 a 14 anos.
Ainda assim, os números escondem uma dependência importante. A geração de energia e os royalties respondem por cerca de 70% do PIB local.
O economista Marcelo Castro Ávila, do Instituto Federal do Sul de Minas, explica que a usina movimenta valores altos, mas cria poucos empregos diretos. Assim, o dinheiro fortalece a arrecadação sem alcançar os moradores na mesma proporção.
O lago atua como saída
A prefeitura recebe recursos da Compensação Financeira pela Utilização de Recursos Hídricos e tributos ligados à usina. Ao mesmo tempo, tenta ampliar as fontes de renda com o chamado Mar de Minas, como mostra a página oficial de turismo de São José da Barra.
Praias de água doce, passeios de lancha, esportes náuticos, gastronomia, mirantes e o pôr do sol formam a nova vitrine do município. O turismo movimenta pousadas, bares, restaurantes, comércio e serviços.
O prefeito Marcelinho Silva vê o setor como caminho para distribuir renda e criar empregos. Ávila também defende a estratégia, mas aponta um obstáculo: São José da Barra precisa reduzir a dependência dos feriados e planejar o crescimento para além da alta temporada.
Quando o Lago de Furnas baixa seu nível, a antiga Barra Velha retorna em fragmentos. A água acaba por revelar o que a obra conseguiu esconder, enquanto a cidade agora reconstruída, tenta encontrar uma identidade econômica própria.
O desafio não é romper com Furnas, algo impossível para sua história e suas contas. São José da Barra precisa fazer o turismo crescer exponencialmente, sem transformar a memória da cidade submersa em um simples cenário. Afinal, o lago ainda sustenta a usina, mas também pode sustentar novas escolhas para quem vive às suas margens.
Vestígios da Barra Velha
A antiga cidade não desaparece por completo. Quando o reservatório baixa, as ruínas e o cemitério reaparecem e reabrem uma história que a água apenas escondeu. A prefeitura mantém registros históricos e turísticos sobre Barra Velha.
São José da Barra não consegue separar sua história da hidrelétrica. Pode, porém, ampliar o papel do Lago de Furnas na vida do município.
Enquanto a estiagem expõe as marcas da antiga Barra Velha, o turismo busca levar fluxo de movimento para pousadas, restaurantes, passeios, além dos negócios que não dependam apenas da usina.









