Por mais indecisos e menos polarização

A ideia do vilão contra o mocinho só dá certo nas histórias em quadrinhos, porque, a exemplo do que o Brasil passa agora, esse conceito não funciona na vida real

TSE abre inquérito para apurar ataques à legitimidade das eleições

Com a união DEM e PSL, está por ser criado o maior partido de centro já visto nos últimos anos | Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil

Pesquisas podem não cravar resultados, porém são ótimos termômetros para medir os ânimos em relação às eleições. Nesta semana, o Datafolha divulgou a mais recente pesquisa de intenção de voto para eleição presidencial de 2022 que mostra o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva na liderança com 41%. Em segundo lugar aparece o atual presidente Jair Bolsonaro, com 23%.

Continua após a publicidade

Em um possível cenário com no mínimo oito candidatos, entre eles nomes de famosos como Luciano Huck ou do ex-ministro Sergio Moro (ambos sem partido), ou ainda do governador João Doria (PSDB), é triste constatar que o brasileiro opte sempre pelos mesmos, dando protagonismo para a perigosa polarização. A ideia do bom contra o ruim, do vilão contra o mocinho, só dá certo nas histórias em quadrinhos, porque a exemplo do que o Brasil passa agora, esse conceito não funciona na vida real.

A polarização que elegeu o atual presidente fez com que o ódio fosse o principal motivo do voto. Veja bem, não foram as propostas (quais mesmo?) de Jair Bolsonaro e ideias de seu partido (qual mesmo?) que convenceram a maioria da população a elegê-lo como seu representante. “Qualquer coisa, menos o PT”, clamavam os eleitores nas redes sociais.

É de se indagar, então, por que a maioria dos eleitores disse agora que, pelo menos nesta pesquisa citada acima, votaria em Lula. A análise deve ser mais profunda e complexa e uma das razões que podemos citar é a relação do brasileiro com o poder. Para eleger uma pessoa para um cargo público, quase nunca por aqui se leva em conta suas habilidades intelectuais, base de relacionamento interpessoal, propostas ou propósito de vida. O brasileiro no geral gosta do anti-herói, do azarão ou do estilo provedor.

Continua após a publicidade

Não precisa ir muito longe, podemos começar por qualquer cidade pequena do interior do País onde o perfil dos candidatos difere, mas quem ganha são sempre os mesmos: o delegado, o coronel, o líder comunitário, o ex-vereador ou o ex-prefeito. Pode reparar. É sempre aquele que tem condições de dar vantagens, fazer favores ou atender interesses de grupos pequenos de poder.

Temos que nos livrar dessa necessidade de ter um mártir e desfazer a ideia de um governo patriarcal. Um vereador, governador, prefeito ou presidente não é um pai que deve ajudar seu filho, é um representante do povo e deveria atender aos interesses desse povo. No entanto é possível evitar tamanho desastre de continuarmos elegemos sempre os mesmos. A mesma pesquisa Datafolha mostra que, quando é o eleitor que cita os nomes dos candidatos, 49% disse não saber em quem votar. Estão nos indecisos a nossa esperança.