A previsão de um El Niño de forte intensidade nos próximos meses preocupa especialistas em entidades públicas de diferentes frentes. Além da alteração no clima, o fenômeno também deve alterar a qualidade do ar em São Paulo.
As alterações nos padrões de temperatura, chuva e circulação atmosférica associadas ao fenômeno podem influenciar a concentração de poluentes e as condições de dispersão na atmosfera. Para acompanhar essas mudanças, a Companhia Ambiental do Estado de São Paulo (Cetesb) mantém uma rede de 85 estações de monitoramento distribuídas pelo estado.
Segundo o quarto boletim do Painel El Niño 2026–2027, divulgado pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) e outros órgãos federais em 1º de outubro, a probabilidade de o fenômeno atingir intensidade muito forte entre outubro e dezembro supera 95%. As projeções também indicam que o El Niño pode persistir pelo menos até o primeiro trimestre de 2027.
Embora o fenômeno não provoque necessariamente uma piora na qualidade do ar, as mudanças meteorológicas podem interferir no comportamento dos poluentes. Por isso, acompanhar os índices é importante para identificar episódios de maior concentração de substâncias nocivas e orientar a população, especialmente os grupos mais vulneráveis aos efeitos da poluição.
Como o El Niño pode influenciar a qualidade do ar?
O El Niño é caracterizado pelo aquecimento anormal das águas superficiais do Oceano Pacífico equatorial. Esse aquecimento altera a circulação atmosférica e influencia os padrões de temperatura e precipitação em diferentes regiões do planeta.
Na prática, as condições meteorológicas determinam, em parte, se os poluentes emitidos por veículos, indústrias e outras fontes serão dispersos ou permanecerão mais concentrados perto da superfície.
Períodos de pouca chuva podem reduzir a remoção de partículas da atmosfera pela precipitação. Já condições de estabilidade atmosférica e ventos fracos podem dificultar a dispersão de determinados poluentes. Temperaturas elevadas também favorecem a formação de ozônio troposférico, um poluente que se forma por reações químicas envolvendo outros compostos na presença de luz solar.
Esses efeitos, porém, não são automáticos nem iguais em todas as regiões. A qualidade do ar depende também das emissões locais, da intensidade dos ventos, da umidade e de outros fatores meteorológicos.
O monitoramento permite verificar o que efetivamente acontece em cada região, sem presumir que a previsão de um El Niño intenso resultará necessariamente em níveis mais altos de poluição.
Cetesb monitora poluentes em 85 estações
A rede de monitoramento da Cetesb é composta por 63 estações automáticas e 22 pontos de monitoramento manual, distribuídos por diferentes regiões do estado. A estrutura acompanha poluentes atmosféricos e fornece informações para avaliar as condições ambientais.
Entre as substâncias monitoradas estão:
- Material particulado (MP10 e MP2,5): partículas suspensas no ar, como poeira e fuligem, que podem ser inaladas;
- Ozônio (O3): poluente formado na atmosfera por reações químicas favorecidas pela luz solar;
- Dióxido de nitrogênio (NO2): gás associado, entre outras fontes, à queima de combustíveis;
- Dióxido de enxofre (SO2): gás emitido principalmente pela queima de combustíveis que contêm enxofre e por determinados processos industriais;
- Monóxido de carbono (CO): gás produzido pela combustão incompleta de combustíveis.
Nas estações automáticas, os dados são disponibilizados praticamente em tempo real. A rede permite acompanhar as condições da capital, da Região Metropolitana de São Paulo, do litoral e de municípios do interior.
A estrutura foi ampliada recentemente com a entrada em operação de uma estação automática em Sapopemba, na Zona Leste da capital.
MP2,5: por que as partículas finas preocupam?
Entre os poluentes acompanhados pela Cetesb, o material particulado fino, conhecido como MP2,5, exige atenção especial por seus efeitos sobre a saúde.
Essas partículas têm diâmetro de até 2,5 micrômetros, dimensão muito pequena que permite sua penetração profunda no sistema respiratório. Parte delas pode alcançar os alvéolos pulmonares, e a exposição à poluição por partículas finas está associada a efeitos cardiovasculares e respiratórios.
Em 2026, a Cetesb ampliou o monitoramento desse poluente com a entrada em operação de novos analisadores nas estações de Santo André-Capuava, Sorocaba e Campinas-Taquaral.
Segundo a companhia, todas as estações da Região Metropolitana de São Paulo aptas a realizar esse tipo de medição monitoram o MP2,5. O acompanhamento também abrange municípios do interior.
A concentração dessas partículas pode variar conforme as emissões e as condições meteorológicas. Por isso, consultar os dados locais é mais útil para orientar a rotina do que considerar apenas a previsão geral do fenômeno climático.
Como consultar a qualidade do ar em São Paulo?
A população pode verificar os índices de poluição no portal da Cetesb e no aplicativo oficial da companhia, disponível para celulares com sistemas iOS e Android.
A página de monitoramento apresenta os dados registrados pelas estações automáticas e permite verificar a classificação da qualidade do ar em diferentes localidades.
O Boletim Diário de Qualidade do Ar é publicado às 11h. O documento reúne um resumo das condições registradas nas 24 horas anteriores e uma previsão das condições de dispersão dos poluentes para as horas seguintes, considerando os indicadores meteorológicos.
A classificação da qualidade do ar é dividida em cinco categorias: boa, moderada, ruim, muito ruim e péssima. A avaliação de cada estação considera o poluente que apresenta a pior situação entre os indicadores monitorados.
Como se proteger em dias de poluição elevada?
Crianças, idosos, gestantes e pessoas com doenças respiratórias ou cardiovasculares merecem atenção especial durante episódios de piora da qualidade do ar.
Quando os índices indicarem condições desfavoráveis, algumas medidas podem ajudar a reduzir a exposição:
- Reduza atividades físicas intensas ao ar livre, principalmente nos horários e locais com maior concentração de poluentes.
- Consulte os índices antes de correr, caminhar ou praticar exercícios em ambientes externos.
- Pessoas com doenças respiratórias ou cardiovasculares devem seguir as orientações de seus profissionais de saúde e ficar atentas ao surgimento ou agravamento de sintomas.
- Em caso de falta de ar intensa, dor no peito ou outros sintomas importantes, procure atendimento médico.
O acompanhamento dos dados locais é especialmente relevante em períodos de mudanças meteorológicas. Apesar da previsão de um El Niño muito forte, são as condições efetivamente registradas em cada região que devem orientar os cuidados com a exposição à poluição atmosférica.






