Havia uma época em que abrir um pacote de salgadinho ou um chiclete também significava abrir uma possibilidade de coleção.
Nos anos 1990 e começo dos anos 2000, os brindes conquistaram uma geração de crianças.
Tazos, figurinhas, cards e pequenos brinquedos apareciam nas embalagens e transformavam um simples lanche em uma caça por itens que poderiam ser trocados, disputados ou guardados.
O fenômeno chegou a um dos seus maiores momentos com os Tazos da Elma Chips, que fizeram parte da infância de milhões de brasileiros.
O Tazo virou febre
Os Tazos chegaram ao Brasil em 1997, com a primeira coleção da Elma Chips dedicada aos personagens de Looney Tunes. A série tinha 80 peças divididas entre Tazos normais, Super e Mega. A ideia era simples: colecionar e brincar.
As crianças empilhavam os discos e usavam um Tazo especial para tentar virar os que estavam no chão. Quem conseguisse virar as peças poderia ficar com elas.
Uma reportagem da Folha de S.Paulo publicada em junho de 1997 registrou a dimensão da mania. Crianças carregavam tubos para guardar os Tazos e se reuniam em escolas, prédios e bairros para disputar as peças. Uma delas dizia ter 140 Tazos.
Não demorou para surgirem novas coleções. Animaniacs, O Máskara, Pokémon, Yu-Gi-Oh!, X-Men, Bob Esponja e Naruto foram alguns dos personagens que apareceram em diferentes campanhas ao longo dos anos.
No total, uma contagem publicada pela Superinteressante chegou a 897 tazos distribuídos em 15 coleções.
Até chiclete virou coleção
Os Tazos não estavam sozinhos. Os tradicionais chicletes Buzzy, da Riclan, também apostaram na combinação entre guloseima e colecionável.
As embalagens podiam trazer figurinhas com personagens e temas populares entre as crianças.
Pokémon, por exemplo, ganhou uma coleção de figurinhas em chicletes Buzzy em 1999, durante o auge da chegada dos monstrinhos ao Brasil.
A lógica era parecida: comprar, abrir, descobrir e tentar completar. E quando uma figurinha repetida aparecia, ela não precisava ser inútil. Podia virar moeda de troca no recreio.
O brinde era parte da brincadeira
A estratégia funcionava porque o colecionável não terminava quando a embalagem era aberta.
Ele podia gerar uma nova atividade: trocar com um amigo, procurar a peça que faltava, disputar uma partida ou simplesmente mostrar a coleção para os colegas.
Os próprios Tazos ganharam acessórios para alimentar a mania, como porta-Tazos, álbuns e diferentes tipos de peças.
A estratégia também chamou atenção de pesquisadores. Um estudo da Universidade Federal de Minas Gerais analisou promoções da Elma Chips entre 1997 e 2002 e destacou justamente o uso dos Tazos como ferramenta de atração do público infantil.
A febre ficou na memória
Hoje, comprar um pacote de salgadinho ou um chiclete dificilmente provoca a mesma expectativa de décadas atrás.
Não havia aplicativo para avisar qual item faltava, mercado virtual para comprar a peça perdida ou grupo online para completar uma coleção.
Era preciso encontrar outro pacote, perguntar aos amigos ou negociar durante o recreio.
Talvez seja justamente por isso que os brindes tenham permanecido tão fortes na memória de quem viveu aquela época.
No fim, não era apenas uma figurinha ou um pequeno disco de plástico. Era uma desculpa para brincar, conversar, trocar e voltar no dia seguinte à escola com uma nova descoberta.
E, para uma geração, abrir um salgadinho nunca mais foi apenas abrir um salgadinho.






