A morte é uma experiência que atravessa todos nós, mas por que ainda temos tanta dificuldade de falar sobre ela? É a partir dessa provocação que “Não Aprendi Dizer Adeus” retorna a São Paulo para uma temporada gratuita com apresentações nos teatros municipais da cidade, entre agosto e setembro de 2026.
Idealizado, escrito e protagonizado por Bárbara Salomé, com direção e dramaturgia de Rafaela Azevedo, o solo de palhaçaria para adultos transforma um dos maiores tabus da sociedade em uma experiência de humor, interação e reflexão.
Em cena, a palhaça Leila Simplesmente Leila tenta fugir da própria morte. Entre situações absurdas, fracassos e momentos de comicidade, ela revela medos, desejos e contradições que aproximam o público de uma questão universal: como aprendemos a dizer adeus?
A temporada segue ao longo das próximas semanas, com apresentações gratuitas em equipamentos culturais distribuídos pelas zonas norte, sul, leste e oeste da Capital. A circulação faz parte da 10ª edição do Programa Municipal de Fomento ao Circo para a Cidade de São Paulo.
Quando o riso encontra a morte
Na palhaçaria, o riso muitas vezes nasce justamente daquilo que nos amedronta. O palhaço fracassa, erra, perde o controle e revela suas vulnerabilidades.
É desse lugar de humanidade que “Não Aprendi Dizer Adeus” constrói sua narrativa, mostrando que humor e tragédia podem caminhar lado a lado.
Em um Brasil que envelhece e diante de uma sociedade que ainda encontra dificuldades para falar sobre a finitude, o espetáculo se mantém atual ao propor uma conversa sobre luto, memória e as transformações que atravessam a vida.
A obra cria um espaço de encontro para refletir sobre despedidas, mudanças de ciclo e a relação humana com aquilo que não pode ser controlado.
A relação de Bárbara Salomé com o tema é pessoal e atravessa sua criação desde a infância. Essa experiência se transformou em pesquisa artística e deu origem ao espetáculo.
Minha primeira experiência de vida foi a morte. Aos 5 anos, perdi minha irmã mais nova e esse tema passou a atravessar minha criação artística. Durante muito tempo, tentei entender como falar sobre algo que todos nós vamos viver, mas que ainda tratamos como um assunto proibido. O riso muitas vezes nasce justamente daquilo que nos amedronta. A palhaçaria nos lembra que, mesmo diante do inevitável, ainda podemos criar espaços de encontro, escuta e acolhimento.
Plateia participa do jogo
A montagem também se destaca pela relação direta com o público. A cada apresentação, os espectadores participam do jogo cênico e compartilham reações e experiências, transformando cada sessão em uma vivência única.
Como um ritual simbólico de encontro, a plateia é convidada a refletir sobre as diferentes formas de lidar com as despedidas. No palco, Leila tenta escapar do inevitável enquanto, aos poucos, conduz os espectadores a encarar a mesma questão.
“A palhaça revela suas vulnerabilidades sem medo. É desse lugar profundamente humano que nasce o riso”, afirma Rafaela Azevedo, diretora do espetáculo.
Palhaçaria feita por mulheres
A montagem também evidencia a presença feminina na palhaçaria. Historicamente associada a espaços ocupados majoritariamente por homens, a linguagem vem sendo transformada por artistas que ampliam suas possibilidades estéticas e temáticas.
Ao colocar uma mulher no centro da comicidade, da sensibilidade e da reflexão sobre a existência, “Não Aprendi Dizer Adeus” reafirma a potência feminina na cena contemporânea.
Reconhecido como um dos destaques da cena teatral brasileira recente, o espetáculo foi eleito uma das 25 melhores peças de 2022 pela Folha de S.Paulo, sendo o único trabalho de palhaçaria presente na seleção.
Desde a estreia, a montagem passou por importantes espaços culturais, festivais e unidades do Sesc em São Paulo e em outros estados, conquistando sessões lotadas e uma forte conexão com a plateia.
Além das apresentações, o projeto realizou ações formativas gratuitas, entre elas oficina de iniciação à palhaçaria, laboratório de cenas cômicas voltado para mulheres e uma roda de conversa on-line sobre “O humor em tempos sombrios”.
Serviço – ‘Não Aprendi Dizer Adeus’
- Quando? 28, 29 e 30 de agosto | Sexta e sábado, às 20h | Domingo, às 19h
- Onde? Teatro Paulo Eiró – Avenida Adolfo Pinheiro, 765, Santo Amaro
- Quando? 10, 11 e 12 de setembro | Quinta, sexta e sábado, às 20h
- Onde? IBT Instituto Brasileiro de Teatro – Avenida Brigadeiro Luís Antônio, 277







