Nós, rachaduras e outras imperfeições costumam reduzir rapidamente o valor comercial da madeira. Quando uma peça não atende aos padrões exigidos para tábuas ou produtos de maior qualidade, o destino pode ser a fabricação de paletes, aglomerados ou até a geração de energia. Uma startup alemã encontrou outro uso para parte desse material.
Sediada em Stuttgart, a Triqbriq desenvolveu blocos maciços chamados Briqs, produzidos principalmente com madeira industrial e peças das classes inferiores C e D. Pequenos segmentos são encaixados e presos por pinos de faia, sem cola ou adesivos. Na obra, os módulos são empilhados até formar paredes inteiras.
A forma de montagem facilita também uma eventual retirada da estrutura. Como os componentes não são colados, os blocos podem ser separados quando o edifício for desmontado e aproveitados novamente em outra construção.
Madeira rejeitada ganha outro uso
A produção utiliza principalmente espécies de madeira macia, como abeto, pinheiro, lariço, pinheiro-de-douglas e abeto-prateado. A matéria-prima pode chegar de serrarias, paletes, demolições ou diretamente de áreas florestais.
Há limites para esse reaproveitamento. Partes muito finas, madeira excessivamente jovem e peças atingidas por mofo ou deterioração precisam ser descartadas. Como as vigas são cortadas em segmentos menores, trechos com nós ou áreas apodrecidas podem ser retirados antes da montagem.
Após a secagem, o material chega à fábrica com umidade residual entre 16% e 18%. O bloco padrão mede 25 centímetros de altura, 25 centímetros de largura e 50 centímetros de comprimento, além de pesar aproximadamente 14 quilos.
Oito módulos são necessários para formar um metro quadrado de parede. A linha também inclui outros tamanhos voltados à construção maciça e a acabamentos internos.
Robôs montam os blocos
Uma nova fábrica em Tübingen passou a produzir os Briqs em escala maior. A linha automatizada tem cerca de 25 metros de extensão e é formada por quatro células interligadas.
Cinco robôs da KUKA, normalmente encontrados em fábricas de automóveis, serram a madeira, fazem os furos e montam as peças. A linha tem capacidade para fabricar aproximadamente 100 mil blocos por ano.
Serrarias, carpintarias e empresas do setor também podem comprar ou arrendar equipamentos semelhantes por cerca de € 1,8 milhão. A proposta é permitir que a madeira seja processada perto de sua região de origem e entre em cadeias locais de construção.
Para uma serraria, isso pode representar uma alternativa à produção de itens de menor valor agregado. Em vez de destinar determinada madeira somente a paletes, por exemplo, o material poderia ser transformado em Briqs e comercializado dentro desse sistema.
Paredes podem ser desmontadas
Uma das características do projeto é a possibilidade de desmontar a construção sem destruir os blocos. Retirados os encaixes, os componentes podem ser separados e encaminhados para outro uso.
Cerca de 40 projetos já haviam sido concluídos no período informado pela empresa, entre casas, ampliações de edifícios, supermercados e estandes de exposição. Alguns desses espaços foram desmontados depois de utilizados.
Em Braunschweig, um supermercado da rede Edeka foi construído em maio de 2025 com aproximadamente 11 mil Briqs. O prédio foi projetado de maneira que sua estrutura possa ser desmontada.
A tecnologia também chegou a um empreendimento habitacional subsidiado perto de Bamberg. Dos 24 apartamentos previstos no projeto, 12 seriam construídos com os blocos de madeira.
Montagem pode ser mais rápida
Usar módulos padronizados reduz a quantidade de peças feitas especialmente para cada trecho de uma parede. O mesmo tipo de bloco é repetido durante boa parte da montagem, o que ajuda a acelerar o trabalho no canteiro.
Segundo a Triqbriq, um pavimento de aproximadamente 500 metros quadrados pode ser erguido em dois dias. A empresa afirma ainda que proprietários podem participar de algumas etapas da montagem, embora a construção continue submetida às exigências técnicas e às normas locais.
Outro argumento apresentado pela startup envolve o carbono armazenado na madeira. Durante o crescimento, as árvores retiram CO₂ da atmosfera, e parte desse carbono permanece retida no material depois do processamento.
A estimativa divulgada pela companhia aponta que um metro quadrado de parede feita com Briqs armazena cerca de 177 quilos de CO₂. O reaproveitamento da madeira e a possibilidade de desmontar as construções também são usados pela empresa para apresentar o sistema como alternativa dentro da economia circular.
Empresa mira outros países
A Triqbriq faturou pouco mais de € 1 milhão em 2025 e pretende alcançar a lucratividade em 2026. Ao mesmo tempo, começou a levar a tecnologia para mercados fora da Alemanha.
Na Áustria, parceiros podem adquirir licenças para fabricar e comercializar os blocos de maneira independente. A operação local foi criada em 2025, e pelo menos quatro unidades estavam previstas para entrar em funcionamento em 2026.
Suécia, Portugal e Estados Unidos também aparecem nos planos de expansão da companhia.
Normas ainda dificultam avanço
Mesmo com projetos já concluídos, a empresa aponta as regras do setor da construção como uma das barreiras para ampliar o sistema. Muitas normas foram elaboradas para métodos tradicionais e não consideram edifícios projetados desde o início para serem desmontados e reutilizados.
A discussão também acompanha as metas europeias para reduzir emissões e manter materiais em circulação por mais tempo.
Uma madeira que poderia terminar em um produto de menor valor ou ser queimada passa a permanecer por mais tempo na cadeia produtiva.
Em Tübingen, esse material chega à fábrica, tem as partes inutilizáveis retiradas e é transformado em módulos padronizados por uma linha de robôs. Depois de usado em uma parede, o bloco pode ser retirado sem ser destruído e empregado novamente em outra obra, prolongando o aproveitamento de uma madeira que antes teria bem menos destinos possíveis.






