Usar muito a tecnologia pode fazer seu cérebro perder habilidades cognitivas, e isso pode afetar a sociedade

Especialistas alertam que o uso compulsivo de celulares, redes sociais e inteligência artificial pode afetar a memória, a criatividade e até as relações sociais

Dependência digital pode aumentar ansiedade, isolamento e reduzir o exercício do cérebro, mas especialistas explicam como evitar esse ciclo (Foto: Freepik)

Dependência digital pode aumentar ansiedade, isolamento e reduzir o exercício do cérebro, mas especialistas explicam como evitar esse ciclo (Foto: Freepik)

Você já deixou o celular resolver uma tarefa simples que antes fazia sozinho? Para especialistas da USP, esse hábito pode parecer inofensivo, mas, quando se torna rotina, começa a alterar a forma como o cérebro trabalha.

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O uso excessivo de celulares, redes sociais e inteligências artificiais está associado à chamada tecnoadicção, uma dependência comportamental que pode comprometer habilidades cognitivas, aumentar sintomas de ansiedade e enfraquecer as conexões sociais.

Em vez de abandonar a tecnologia, especialistas defendem um caminho mais equilibrado: aprender a usá-la de forma consciente para aproveitar seus benefícios sem prejudicar a saúde mental.

O que é a tecnoadicção

A tecnoadicção é o uso compulsivo das tecnologias digitais. Ela acontece quando a pessoa passa a depender de celulares, computadores, redes sociais ou ferramentas de inteligência artificial para realizar atividades cada vez mais simples do cotidiano.

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Segundo a médica psiquiatra Cristiane Von Werne Baes, do Departamento de Neurociências e Ciências do Comportamento da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP) da USP, esse comportamento expõe o cérebro a estímulos intensos e frequentes.

Esse excesso provoca a liberação constante de dopamina, neurotransmissor ligado às sensações de prazer e recompensa. Com o tempo, o cérebro passa a buscar esses estímulos repetidamente, favorecendo um ciclo de dependência.

Por que as plataformas prendem tanto a atenção

Grande parte das plataformas digitais foi desenvolvida para manter o usuário conectado pelo maior tempo possível. Para isso, utilizam algoritmos que analisam preferências e sugerem conteúdos cada vez mais atrativos.

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Além disso, modelos preditivos conseguem antecipar quais vídeos, publicações ou filmes têm maior chance de despertar interesse. Esse mecanismo faz com que muitas pessoas permaneçam navegando sem perceber o tempo passar.

Para Cristiane, esse comportamento reduz o tempo dedicado à convivência familiar, às amizades e ao lazer. “As plataformas digitais são projetadas para capturar e manter a atenção do usuário por longos períodos. Isso faz com que a pessoa perca um tempo significativo que poderia estar se dedicando à convivência familiar, à amizade e ao lazer”, explica ao Jornal da USP.

Como o cérebro pode perder desempenho

Embora a tecnologia facilite inúmeras tarefas, especialistas alertam que ela também pode reduzir o exercício mental quando substitui atividades realizadas naturalmente pelo cérebro.

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Segundo João Flávio de Almeida, especialista em Sociedade, Ciência e Tecnologia e professor da Universidade de Ribeirão Preto (Unaerp), “toda tecnologia tem duas faces inevitáveis: ela é capaz de expandir as habilidades humanas, mas, em contrapartida, pode causar prejuízo em outros aspectos”.

Ele afirma que o cérebro precisa ser estimulado diariamente. Como exemplo, explica que um estudante que passa a usar inteligência artificial com muita frequência para escrever pode, aos poucos, perder criatividade, prática e interesse pela escrita. Esse processo é chamado de decaimento cognitivo.

Excesso também afeta a saúde mental

Os impactos não ficam restritos à memória ou ao aprendizado. O uso exagerado das mídias digitais também está relacionado ao aumento de sintomas emocionais importantes.

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De acordo com Cristiane, “o uso excessivo das mídias digitais está associado ao aumento de sintomas de ansiedade, depressão, estresse, irritabilidade, sensação de solidão e isolamento”.

Além disso, a especialista destaca que o excesso de tempo diante das telas pode enfraquecer relações pessoais, diminuir momentos de convivência e aumentar a sensação de inadequação e distanciamento social.

Como usar a tecnologia sem prejudicar o cérebro

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Os especialistas reforçam que a solução não é abandonar celulares, computadores ou inteligência artificial. O principal objetivo é desenvolver uma relação mais consciente com essas ferramentas.

Cristiane defende que a educação digital deve começar ainda na infância. “A educação digital tem que começar desde cedo, ajudando as nossas crianças e os nossos jovens a compreenderem como as plataformas digitais são projetadas para capturar a nossa atenção e influenciar os nossos comportamentos”.

Também fazem diferença hábitos como estimular a leitura, praticar atividades que desafiem o cérebro, limitar o tempo nas redes sociais e fortalecer as relações presenciais. Assim, é possível aproveitar a tecnologia sem cair no ciclo da dependência digital.