Sobras à mesa

Não que o combate ao desperdício não seja importante, mas sugerir que sobras sejam usadas para atender às pessoas desamparadas soa algo abjeto

O ministro da Economia, Paulo Guedes

O ministro da Economia, Paulo Guedes | Marcelo Camargo/Agência Brasil

O sujeito pode ter origem pobre ou milionária, isso é o de menos, mas uma característica que qualquer pessoa que ocupe cargos públicos estratégicos precisa ter: sensibilidade para entender as necessidades primárias do seu povo. No caso do Brasil, um país com históricos problemas de distribuição de renda e onde ainda pessoas sofrem pela fome, o olhar atento de quem tem poder para mudar rumos da nação deveria ser ainda mais apurado. Às vezes – e não são poucas vezes – não é o que parece que ocorre com o ministro da Economia, Paulo Guedes. Mestre e doutor pela Universidade de Chicago, o nosso Chicago Boy mais uma vez se enrolou nas palavras (e, quem sabe, nas intenções) ao falar sobre a alimentação no Brasil.

O ministro disse na última quinta (17) que os brasileiros desperdiçam muita comida, criticando supostos “excessos” na cadeia produtiva e até em refeições. O economista usou como exemplo hábitos da “classe média europeia”, que, segundo ele, tem “pratos relativamente pequenos”.

“O prato de um classe média europeu, que já enfrentou duas guerras mundiais, são pratos relativamente pequenos. E os nossos aqui, nós fazemos almoços onde às vezes há uma sobra enorme. Isso vai até o final, que é a refeição da classe média alta, até lá há excessos”, disse.

“Toda aquela alimentação que não for utilizada durante aquele dia no restaurante, aquilo dá para alimentar pessoas fragilizadas, mendigos, desamparados”, afirmou, ao sugerir que a ideia se torne uma política pública.

Não que o combate ao desperdício alimentar não seja importante, mas sugerir que sobras sejam usadas para atender às pessoas desamparadas soa algo abjeto. “É melhor que nada”, dirão alguns mais empolgados em defender o governo a qualquer custo. Foi o mesmo que disseram sobre a infeliz proposta do governador João Doria, ainda como prefeito da Capital, de alimentar as pessoas em situação de rua com uma espécie de ração humana, batizada pomposamente como farinata.

Para piorar, ainda na quinta a ministra da Agricultura, Tereza Cristina, admitiu que vai avaliar a proposta de flexibilizar a regra que versa sobre o prazo de validade dos alimentos no Brasil.

O grave problema da fome se começa a resolver com investimento contínuo em políticas públicas que transformem realidades e que dê oportunidade a mais gente a cada dia ascender socialmente. Restos de comida e alimentos quase vencidos não são propostas aceitáveis em nenhum país decente do mundo. É preciso olhar verdadeiramente para o povo se quiser mudar o rumo das políticas sociais. Ainda há tempo.