‘Não sou um artista de rua, mas sou um artista da rua’, diz Mulambö sobre suas obras

Em entrevista para à Gazeta, o artista fala sobre como tenta contar histórias do dia a dia com seu trabalho e fazer conexões entre os lugares que passa e sua obra

Mulambö se prepara para pintar uma empena dupla na 4° edição do Festival Internacional NaLata

Mulambö se prepara para pintar uma empena dupla na 4° edição do Festival Internacional NaLata | Ana Julia Motta/Divulgação

O artista visual Mulambö, da cidade de Saquarema, no Rio de Janeiro, começou sua trajetória na arte recolhendo materiais que encontrava na rua para pintar e hoje já levou suas obras para galerias de lugares como Alemanhã, Barcelona e Estados Unidos. Buscando retratar o seu dia a dia e evidênciar elementos do cotidiano em seus trabalhos o artista se inspira em elementos essencialmente brasileiros, como o Carnaval.

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Em entrevista à Gazeta, Mulambö fala sobre seu começo na arte e a importância dos personagens do cotidiano na sua criação. “A gente acaba falando da nossa família, do nosso lugar, e isso é importante pra caramba, não só para mim mas também para quem de alguma forma se conecta.”

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O cotidiano está explicito na suas obras, e dentro desses elementos está a conexão do artista com o samba e o Carnaval, que por diversos momentos serviram como fonte de inspiração e também de refúgio durante a pandemia: “O samba ele nasce como uma forma de reconstrução de sociabilidade, é uma forma da galera se juntar e construir laços e de resistência. E eu mergulhei nessa pegada durante esse processo de afastamento, o carnaval me salvou também.”

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O artista agora se prepara para pintar uma empena dupla a partir do dia 20, na 4° edição do Festival Internacional de Arte Urbana – NaLata, que acontece do dia 13 de outubro ao dia 4 de novembro, em São Paulo. Mulambö vai produzir duas crianças brincando nessas grandes empenas. “Vai ser o maior trabalho que á fiz”, citou o artista sobre a experiência. 

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Além desse trabalho na capital paulista, Mulambö está com obras em seis exposições em quatro estados do Brasil.  

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Confira a entrevista completa: 

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Quais foram suas primeiras referências artísticas? 

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É muito curioso, ao mesmo tempo que a gente tem muita referência cultural é muito difícil entender aquilo como uma referência artística. Para mim foi um processo. Sempre tive muito contato com história em quadrinho, comecei querendo fazer desenho animado, essas paradas, algumas coisas relacionadas à música. Mas principalmente as histórias em quadrinhos, que são coisas que foram o primeiro contato. E muito da forma onde aprendi a contar as histórias através do meu trabalho, sempre tento contar algumas histórias e vem muito disso, das paradas que a gente está em contato no dia a dia mas que acaba tendo uma dificuldade de visualizar aquilo como realmente trabalhos artísticos. E além disso, tudo pegando para o outro lado, uma coisa mais familiar foi o Carnaval, minha família é de escola de samba, sempre foi uma coisa muito presente essa ideia da carnavalização, do viver o Carnaval, de transformar as coisas para o Carnaval. Isso possibilita essa forma de pensar, então muito parte da minha forma de tentar carnavalizar as coisas. Essas referências que apareceram primeiro para mim.

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Qual sua relação com o Carnaval?

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Desfilo já há alguns anos, no penúltimo Carnaval fui campeão com a Grande Rio – a Acadêmicos do Grande Rio foi campeã do carnaval do Rio de 2022, com o samba-enredo homenageando Exu. Eu desfilava na Academia do Sossego, que era a escola da minha família, que participou da fundação. Só que ela tem alguns problemas jurídicos, ela acaba mudando o nome e ficando um pouco diferente, acabei me afastando um pouco por conta desse trâmites e por conta de trabalho também. Mas já desfilei na Grande Rio, no Salgueiro, muito por conta do meu trabalho. Eu era muito do Carnaval de rua também, mas nos últimos anos tenho me relacionado com desfile, com o barracão e principalmente estando próximo e fazendo os trabalhos juntos com artistas de Carnaval, carnavalescos, escultores. Tento trazer isso para o meu trabalho também.

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Mulambo desfila pela Grande RioDesfile da Acadêmicos do Grande Rio/Divulgação

Sua família tem essa cultura carnavalesca também? 

Na época da minha avó, por parte de mãe, quando ela era viva era muito mais presente. Mas é uma coisa muito presente também seja em questão do Carnaval de rua, seja em escola de samba, a minha família é próxima. Cada integrante da família tem uma relação independente, essa relação que é natural.

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Sua arte fala muito sobre cotidiano, como começou isso?

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Foi uma coisa meio natural. Principalmente quando eu começo meu trabalho, esses temas, esses materiais eles aparecem de forma muito funcional, porque era um material que eu encontrava mais fácil. Eu não tinha dinheiro para ter telas e essas paradas, então eu usava os materiais que encontrava, e tentava com esse materiais que eu tinha próximo contar as histórias que queria. Eu pensava em definir bem o enredo que eu queria contar e as coisas que eu queria dizer usando os materiais que tinha. Digo desde o papelão ou uma madeira, até a história e personagens. Nasce de uma coisa muito impulsional, de coisas que estão próximas de mim e depois se torna uma escolha deliberada mesmo.

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Isso foi ficando mais evidente durante o amadurecimento do seu trabalho?

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Falar desses assuntos, desses temas do cotidiano, foi o que me fez acreditar no que estava fazendo. É o momento que eu percebo o valor dessas coisas que estão próximas de mim, das histórias que são próximas das minhas, do lugar de onde venho.Ter entendido a importância disso para minha construção como pessoa, antes de ser artista, é o que me dá vontade de fazer os meus trabalhos. É o retorno para as pessoas que ajudaram a construir o que eu sou hoje, falar do dia a dia para mim é falar sobre o que sei. Meu trabalho parte muito sobre pensar essas coisas do dia a dia que geralmente a gente não pensa, passa batido. É justamente procurar esse contato, essa experiência, é muito gostoso assim, confesso. Porque a gente acaba falando da nossa família, falando do nosso lugar, isso é importante pra caramba, não só para mim mas também pra quem de alguma forma se conecta.

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Você falou um pouco sobre os materiais que você começou a trabalhar assim. O que você usava e que você usa ainda até hoje?

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Quando comecei a fazer esse trabalho eu já fazia coisas digitais, e em determinado momento eu queria fazer coisas materiais, tipo da vida real. Queria mostrar para minha avó, na época isso era 2016, 2017, a galera não tinha WhatsApp ainda. Aí eu ficava: “Como é que eu quero mostrar para as pessoas da minha família essa parada de alguma forma?”. Então comecei a ir na rua e pegar madeira que encontrava na praia, pedaço de madeira de resto de mercado, qualquer superfície que fosse grande, resto de armário. e utilizar tinta de material de construção porque era mais barato. Comecei por isso, queria fazer coisas palpáveis para mostrar para as pessoas, a perspectiva que eu tinha era fazer a estrutura e colocar na praia para a galera olhar, mas era muita madeira e não tinha como carregar. Comecei a pintar com uma superfície mais leve, e experimentei o papelão, foi assim que o papelão chega no meu trabalho. Depois quando ganhei certa visibilidade esses materiais aparecem como uma afirmação. Eu queria usar o papelão, usar uma vassoura, sem esconder que era uma vassoura e sem esconder que eu era de Saquarema. Isso serviu como uma forma de afirmar esse lugar, que aparecem no começo como uma necessidade mas que hoje fazem todo sentido, então eu tento sempre valorizar e manter essa parada. 

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Como se iniciou seu trabalho na internet?

Fiz um Instagram só pra mostrar para a galera essas paradas que eu fazia, pra ter organizadinho, e é lá que as pessoas começaram a conhecer meu trabalho. Comecei a fazer algumas intervenções de fotografias que são trabalhos pensados para internet, para a galera fazer stories, compartilhar. Depois esses trabalhos foram pra galeria e tudo mais. E a partir daí meu trabalho começa a ser conhecido e comecei a participar de algumas exposições, também muito por conta da Carla Santana que é uma artista de São Gonçalo, uma amiga que me ajuda muito e dá muita força pra minha trajetória. A galera que me acompanha na internet, eu tento me manter próximo mesmo que a pessoa não tenha a possibilidade de ver o meu trabalho numa galeria. Porque muita gente que me acompanha desde o começo nunca foi no museu, nunca foi numa galeria, e me segue no Instagram. Então tento sempre manter essa proximidade com essa galera, porque se eu estou aqui foi pelo apoio deles.

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Você está com uma exposição em Barcelona, seu trabalho está sendo reconhecido internacionalmente. Como foi ver o trabalho ganhar essa proporção? 

Foi uma doidera, até porque meu trabalho é muito daqui, muito Brasil, Rio de Janeiro. Eu já tinha feito um projeto nos Estados Unidos, em Seattle, durante a pandemia, mas foi a primeira possibilidade de pensar como que eu faço pro meu trabalho fazer sentido nesse outro lugar se eu falo tanto do meu lugar. “Como que esse moleque de Saquarema carregando um monte de tralha vai estar nesses lugares assim?”. Então sempre procuro tentar achar um ponto de ligação. Em Seattle fiz um trabalho muito ligado as populações imigrantes latino-americanas e caribenhas nos Estados Unidos. Em Barcelona fiz um trabalho a partir da figura do Vinícius Jr., porque o período que fui, e fiz uma residência artística lá e depois eu fiz essa exposição, foi o jogo do Vinicius Jr. em que o estádio de Valencia chama ele de macaco. Eu falei: “Cara, é isso que eu vou falar lá, eu tenho que falar disso.” Eu tento sempre fazer isso, tentar contextualizar o meu trabalho nesses outros espaços, seja lá fora ou seja de outro espaço aqui do Brasil também.

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O que você viu estando em Barcelona durante a repercussão do episódio de racismo que o Vinicius Jr. sofreu?

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Essa experiência de Barcelona foi muito importante, porque o caso do Vinícius era uma coisa muito latente e foi muito chocante estar lá. Eu tava numa galeria que era aberta para rua, e ficava pintando a imagem do Vinícius e passava gente e falava: “não gosto dele, não”. E muita gente que passava e não sabia quem era, eu pensava: “chamaram o cara de macaco no estádio do seu país e você não tá ligado”, coisas assim. Então foi um contexto muito doido. A gente participou de uma feira de arte depois que a exposição acabou, que era mais comercial, e tem mais medo ainda de tocar nesses assuntos mais polêmicos, tipo racismo. E a gente apresentou esse trabalho, e defendeu. Porque para além do trabalho em si fazer essa exposição e criar esse debate foi muito importante para mim. É entender também como que a minha posição de artista vindo desse lugar e chegando nesses outros espaços faz sentido.

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Obra MulamboSérie Punta de Lanza/Divulgação

Como foi conseguir ocupar esses espaços mais elitistas na arte?

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Para mim é uma coisa muito do momento. Chegamos num momento que está sendo impossível de você ignorar a produção negra, periférica, indígena também, que está conquistando espaço agora, mas que sempre existiu. Sempre pensei muito sobre isso, no sentido de como consigo entrar em certos espaços, porque muitas vezes são oportunidades, mas são oportunidades para falar o que os espaços querem ouvir. Tento pensar muito no meu trabalho, de certa forma, que consiga agradar dois universos. É muito doido de estar nesse universo porque é muito distante da nossa realidade. Lembro quando estava começando, cantando madeira, eu falava assim: “Cara, eu quero ser artista”. Tá ligado? Quando pensei em ser artista, se der tudo certo acontece o quê? Não faço a menor ideia do que acontece se dá certo. Se você for artista é uma coisa tão distante, não tem referencial, não conheço ninguém na parada, tanto que demora um tempo assim para se aceitar e falar “eu sou artista”. Cheguei nesse circuito das artes durante esse processo da pandemia. É uma coisa que a gente vai aprendendo na marra, tanto ser artista quanto viver nesse universo e aprender dar esses dribles nesse circuito. 

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E foi difícil criar sobre coisas do cotidiano estando isolado em casa?

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Uma coisa que me salvou durante esse período foi justamente os desfiles de escolas de samba, e comecei a estudar e assistir muitos desfiles. Porque é isso o samba: ele nasce como uma forma de reconstrução de sociabilidade, é uma forma da galera se juntar e construir laços e de resistência. Mergulhei nessa pegada durante esse processo de afastamento, o Carnaval me salvou também. Desse processo sai uma série que expus na Alemanha, foi a primeira exposição lá fora, e foi com esse trabalho sobre o Carnaval. Não sou um artista de rua, mas sou um artista da rua, e não tinha a rua mais, então era mó doidera.

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Você vai pintar uma empena dupla aqui em São Paulo, no Na Lata Festival. Como foi a escolha da arte pra esse trabalho?

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Nunca consegui entrar muito nessa onda do grafite, então sempre falo que sou um artista que fala da rua, mas não necessariamente trabalha na rua. Quando surgiu esse convite da galera do Na Lata de chamar pessoas que não necessariamente trabalham na rua para ocupar esses espaços também foi muito maneiro, porque vai ser uma experiência muito doida. Vai ser o maior trabalho que já fiz. Morro de cagaço de altura, vou pintar agarrado no carrinho, tá ligado? E o desenho ele nasce muito da experiência do prédio também que é uma empena dupla, ai eu vou colocar um menino e uma menina que é um símbolo de força mesmo, de esperança. E não só tentar fazer um desenho bonito, fazer uma coisa que faça sentido para a galera que tá passando. Que as pessoas passem e pensem “parece o moleque que tem lá em casa”, “parece comigo”, então para mim isso vai ser importante, vai ser uma experiência muito doida.

Você tem uma obra sua que considera muito marcante?

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O primeiro é o São Jorge, que é um menino na moto. É ym dos primeiros trabalhos que teve um certo alcance. Tem a bandeira Mulambo, que é uma versão da bandeira do Brasil que eu fiz vermelho e preta, que é um trabalho que acaba sendo muito simbólico para minha trajetória porque  sintetizo em uma forma de bandeira o que quero fazer como artista, que é colocar a sociedade no centro de um lugar que sonho em viver E outro trabalho é a série do Carnaval. São cem pinturas mais ou menos que representam as figuras que constroem uma escola de samba, a mitologia, a força de uma escola de samba. Ela só existe por conta das pessoas que vivem as histórias. Então essa série é um pouco para homenagear essas pessoas, tem o escultor, tem a baiana, tem a tia fazendo feijão. Foi justamente essa pintura que me salvou durante a pandemia, mas também que foi um trabalho que tenho muito orgulho de fazer, justamente por ser uma coisa que teve essa interpretação da minha vida desse universo da arte com o Carnaval. É um trabalho bem simbólico.

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Quais são seus planos com a sua arte?

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Estou procurando tentar fazer cada vez mais forte essa relação do meu lugar, de Saquarema, com a minha produção. Seja falar mais diretamente dessas relações, mas também de construir justamente essa nova possibilidade de pensar o subúrbio, a periferia, de descentralização da arte. Porque aqui no Rio tem a zona norte, tem a Baixada Fluminense. Tem muito forte essa coisa do subúrbio, mas eu já venho da Região de Lagos que é uma outra história, são outras construções sociais. Estou tentando sempre deixar claro que a gente também existe, tá ligado? O que procuro com meu trabalho de fato é conseguir abrir um espaço, construir um centro cultural aqui em Saquarema com esporte, com cultura e várias paradas. Tudo que  faço hoje é justamente para ter esse espaço, nem que seja daqui a 50 anos. É construir esse terreno. E me manter com pé no chão também, quero fazer uma exposição falando daqui, tentar me aproximar cada vez mais e tentar me tornar uma referência, porque pra mim no começo a dificuldade foi essa de não ter uma perspectiva de qualquer coisa. Quero que o meu trabalho traga perspectiva para a galera.
 

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*Assistente de redação, sob supervisão