Ela passou 26 anos longe da irmã, mas o olhar do bonobo revelou uma lembrança que resistiu ao tempo 

O caso de Louise, que voltou a olhar para o rosto da irmã após 26 anos, chamou atenção para a força da memória social. 

Bonobo em ambiente externo, espécie estudada em pesquisas sobre reconhecimento e memória social. (Foto: Reprodução/Wikimedia Commons)

Por 26 anos, Louise, uma bonobo, não viu a sua irmã Loretta. As duas seguiram caminhos diferentes depois que Louise foi transferida para uma instituição no Japão. Quando pesquisadores finalmente colocaram uma fotografia de Loretta diante dela, porém, o rosto familiar pareceu se destacar entre os demais.

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Louise não recebeu nenhum treinamento para realizar o teste. Diante de duas imagens, uma de uma antiga companheira e outra de um bonobo desconhecido, os pesquisadores acompanharam para onde seus olhos se dirigiam. O resultado reforçou uma possibilidade curiosa: a memória social dos grandes primatas pode permanecer ativa por décadas.

O olhar de Louise

Louise tinha 46 anos quando participou da pesquisa. Em 2019, os pesquisadores apresentaram a ela imagens de Loretta, sua irmã, e de Erin, seu sobrinho, que também fazia parte de sua antiga convivência.

As fotografias apareceram ao lado de imagens de bonobos que Louise nunca havia conhecido. Durante oito testes, o olhar dela permaneceu especialmente concentrado nos rostos dos familiares.

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O detalhe chama atenção porque já haviam passado mais de 26 anos desde o último encontro. A separação aconteceu depois que Louise deixou o zoológico de San Diego e foi transferida para o Kumamoto Sanctuary, no Japão, em 1992.

O caso se tornou o exemplo mais extremo observado pelos pesquisadores no estudo sobre memória social em chimpanzés e bonobos.

Teste acompanhou os olhos

A equipe analisou 26 chimpanzés e bonobos mantidos em zoológicos e santuários. Os animais observaram pares de fotografias enquanto câmeras de rastreamento ocular registravam exatamente onde permaneciam olhando.

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Em vez de comparar apenas familiares, o experimento também incluiu antigos companheiros de grupo que não tinham necessariamente relação de parentesco.

No conjunto dos animais avaliados, os pesquisadores observaram uma preferência pelos rostos conhecidos em comparação com indivíduos desconhecidos. O tempo de separação também não eliminou esse padrão.

A pesquisa mostrou ainda que a história de cada relação podia influenciar o resultado. Os animais demonstraram maior atenção a indivíduos com quem haviam mantido relações mais positivas no passado.

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Memória vai além da família

O resultado envolvendo Louise poderia parecer apenas uma lembrança familiar. Os dados, porém, apontaram para algo mais amplo.

Chimpanzés e bonobos também direcionaram mais atenção para antigos companheiros com quem haviam construído relações positivas, incluindo animais com os quais tinham convivido de maneira próxima.

Isso sugere que a lembrança pode estar relacionada não apenas ao reconhecimento de um rosto, mas também à experiência social associada àquele indivíduo.

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A descoberta ajuda os pesquisadores a compreender melhor como funciona a memória dos grandes primatas. A capacidade de reconhecer pessoas conhecidas durante longos períodos é uma característica importante da vida social humana, e os resultados indicam que alguns elementos desse mecanismo também aparecem em nossos parentes primatas.

Uma lembrança que atravessa décadas

O estudo não afirma que todos os chimpanzés e bonobos necessariamente guardam lembranças durante toda a vida. Os pesquisadores apontam que os dados disponíveis permitem falar em reconhecimento social por pelo menos 26 anos em alguns casos.

Para Louise, entretanto, o resultado foi especialmente marcante. Depois de mais de duas décadas sem encontrar a irmã, seu olhar voltou repetidamente para o rosto de Loretta.

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O episódio mostra como uma separação pode não significar o desaparecimento de uma relação da memória. Em animais que podem viver por décadas, lembrar de antigos companheiros pode fazer parte de uma história social muito mais longa do que os pesquisadores imaginavam.